VI 34

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Chuvas, ontem, anteontem, há três dias. Agora nuvens e sol e um mormaço. O mesmo vendedor com a mesma variedade de produtos no mesmo lugar. Parque calmo, poucos passam. Drummond resiste.
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Cinco meninas e um menino mais novo vêm de bicicleta pela grama lá de nordeste até desembocarem na pista. As bicicletas de todos, principalmente dele, parecem grandes demais – com rodas muito redondas, se é que isso é possível. Pedalam em pé para alçarem os pedais. O menino vai à frente e uma pergunta demora muito, tá perto, demora?, ele diz não sei e segue à esquerda. Todas o seguem menos a última: ela faz a curva contrária gritando é pra direita, é pra direita! – e todos, até o menino, por último, acatam o peso da sua palavra e mudam o caminho a seguindo na outra direção. Quatro das cinco de macacões parecidíssimos e todas de cabelos soltos – parecem um Clube do Macacão Feminino, com seu guia não tão confiável, saindo em excursão. Não dá nem dois minutos e cinco garotos, mais velhos que as outras cinco, vêm dos bambus, igualmente de bicicleta e igualmente viram à esquerda – e igualmente um deles (curiosamente de bicicleta pequena demais) diz é pra lá, é pra lá! indicando o caminho que a dissidente dos Macacões havia indicado, mas nesse grupo o peso da palavra é outro e ele é quem acata a direção da maioria, indo todos ao oposto de onde foram as cinco meninas e seu guia.
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O sol sai, não sai, sai. Por uns 15 minutos o vendedor faz ranger uma fita adesiva, reforçando um dos seus isopores. Assim que acaba, uma menina e menino, em trajes de escola bem tradicionais – azul-marinho e branco, saia pregueada e com alças, ele de camisa com gola e botões, parecem de outro tempo –, perguntam quanto custa uma bebida, compram e seguem em direção à Praça da Paz, ela equilibrando o pequeno aquário que trazia, cuja água opaca parece abrigar um só peixe pequeno, vermelho.
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Lá à esquerda, naquele conjunto de troncos mais claro, de repente se aglomeram umas 20 pessoas, uma delas informando algo, olham para os vãos entre os troncos. Seguem, atravessam a pista, repetem a lição num outro ponto vegetal. Seguem, somem. Hoje é o dia das excursões.
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Sol sai, não sai, não sai: remotamente uns pingos, como se cuspisse.
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Nova calmaria. Se esse parque fosse o mar eu temeria uma tempestade furiosa. Acho que nenhum vestígio o encontrou tão espaçado, cheio de brancos, de pausas, de férias das pessoas.
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Pela vigésima vez uma mãe passa de bicicleta levando a reboque um carrinho-bacia de duas rodas com o filho dentro. Era algo tão monótono que não tinha escrito. Continua sendo, mas agora escrevo.
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Sol sai. Pressinto que sou eu que devo sair.
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Treze adolescentes – com violões, sacolas, rindo, falando – atravessam calmamente a linha imaginária TúneldeBambus-Praça.
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7 12 98
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