VI 35

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Ontem mesmo (sem mais vestígios), ali na Paz, via-se em cima o véu das nuvens pondo uma das grandes dançarinas de Matisse a voar. Agora ainda encontram-se uns fiapos, mas a caravana rotunda de nuvens pesadas censura a dança. Entre os vãos, céu muito azul ainda como o de ontem.
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Paz, e não estou na praça. Menos gente – será possível? – do que no último dia.
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Um senhor de bigode grisalho e chapéu preto (com uma peninha verde à direita) vem de calça e camisa de gola e sapato apesar do calor, caminhando nem pela grama nem pelo asfalto – pela calçada de cimento entre os dois – e parece fazer da extensão do caminho mais estreita ainda. Se equilibra. Olha inclinado para a área de chão que vai cobrindo (dá pra pressentir a direção do olhar apesar dos óculos escuros antigos de armação fina e dourada, triângulo-arredondados como os de policiais de TV) e pensa, parece, só no próprio caminho; ou por outra um oposto extremo: deixa os olhos do corpo e os passos cuidando do caminho enquanto o pensamento divaga longe, sabe lá em que plagas, dá volta lá no alto, por trás das nuvens fartas, dançando com Matisse.
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Penso: se fosse no começo, dos primeiros vestígios, teria mil maneiras de ver isto que agora à minha frente não vejo. Teria mesmo? Agora, depois de linhas se acumulando, seria falso dizer a paisagem vai se exaurindo mas esse meu “modo de olhos” parece ir se exaurindo diante dela, diante desse ângulo, sobre este banco. Um eu me pergunta: é caso de insistir ou ceder à demanda vazia? Entregar-se à sintonia do que vier – como desde o início – os diapasões meu e do parque, que se tocam, por acaso. Nessa dúvida ela mesma vira vestígio, se inserindo às maiores nuvens, migrando, como os que passam, como, agora digo, aquele vendedor que ainda está aqui.
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Céu fechado, caço um azulzinho, nada, só a oeste, entre a peneira das folhagens sobre o parquinho, e cada vez menos.
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O vendedor coça o nariz, cruza os braços; a perna esquerda balança uma das gigantes panturrilhas de tanto andar carregando peso. Olha o passeio público, pensa – nunca saberei em quê –, olha o passeio público. Está de costas pra cá, o olho sem dó, daqui a pouco sua orelha ficará vermelha ou se virará sentindo o peso do intruso. Não se vira, não avermelha a orelha, permanece sentado, olha o passeio público.
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Um fotógrafo se apoia no poste de metal entre o bambuzal e a ex-árvore-guimarães-rosa. Aponta a leste mas de lá só vem um imenso caminhão de lixo roncando, não é impossível que lhe interesse mas acho pelo menos esquisito. O caminhão passou, some entre os bambus, o fotógrafo baixa a lente (que afinal não focava o caminhão pois se manteve quando passou) e anda um pouco, com sua arma em riste. Senta-se no banco adiante, volta a apontar na mesma direção, alguma coisa lá deve haver de interessante ou algum espaço ele quer que desperte interesse. Olha sem lente, apoia a cabeça na mão, pensa, tão indecifravelmente – pra mim – quanto o vendedor.
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Pouco antes a uma nova maré de ciclistas, uma moça passa: muito “lisa”, muito branca, um calção, uma blusa, dois tênis, o cabelo escorrido num rabo-de-cavalo domado; muito “suíça”, muito quase coisa nenhuma em sua neutralidade, no entanto pacífica, o que não é pouco. Um ritmo único de serpente encantada, deslizando no asfalto, verticalmente.
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Pingos batem nas palavras, às vezes a ponta escorrega, a tinta escorre. O fotógrafo dura um pouco ainda sentado, um pouco menos que eu. Adeus.
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Não, adeus não: me cubro a dois metros numa pequena árvore, surpreendente abrigo. A multiutilidade arbórea. Chove mas está muito claro, não é possível durar tanto. O céu aquele branco de repente, irradiante de tão fosco, as nuvens-alfândega barram a luz mas liberam o brilho. Não disse? – só mais uns pingos enfezados. As pessoas, há pouco fugindo, voltam ao normal e esquecem, o toque-de-recolher um pesadelo rápido.
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Nada de fotógrafo, o vendedor apenas cobriu e descobriu os produtos, está sentado. Nada de virem o Drummond, nada de crianças, nada de idosos, poucos pássaros.
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A água não foi tanta nem para perfumar a terra. Apenas as páginas engelhadas, as palavras pingadas secas.
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Um moscão violento vara o ar. Lá longe, a uns 100 m, um homem está deitado no banco, de braços cruzados, de cara pro céu. Talvez espere a chuva voltar. Por enquanto não volta, e magicamente uma, duas, três crianças aparecem, nascidas não sei de onde.
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Pela primeira vez vejo que vejo aquele tronco e me parece uma águia gigante de asas abertas e cabeça amputada – são três troncos principais, logo se vê, um deles cortado cerce, os outros dois sumindo no alto. Qualquer um haveria de dizer está forçando a barra, mas não adianta: está ali a águia.
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Um passarão voa baixo bem assustado, parece acordado de um pesadelo e pela primeira vez pensei que veria uma ave se chocando a um tronco. Obviamente não se choca, isso ainda só é de desenho animado, se perde, esperto no seu pânico, entre o emaranhado de outros troncos. Agora já estará em qualquer outro ponto desse parque todo.
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Sol, um sol ameno, mas sol.
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9 12 98
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