VI 36

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Depois de chuvaradas, de um céu a ferro o sol saiu, tímido, modesto, agora com afinco, se animando, se animando, semeia seus raios. Antes de vir ao banco rodei de bicicleta por aí, de walkman ao som de Tom Jobim, me embasbacando em como a luz de sua música se casa com a música da paisagem, das pessoas nela, do lago, das nuvens, de tudo luzindo (cantando). Quando argumentei lá comigo: independe do que diz a letra, a música tem a ver de qualquer jeito... – o Chico vem frisando aquele parece dezembro... de um ano... dourado. Não que o ano tenha sido assim áureo, mas dias como esse bem que fazem pensar que ruindade alguma vale, e não tem passado nem futuro: entre o lá e o acolá, só uma só eternidade.
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O céu só falta derramar o azul – derrama mas não vemos, dirá meu lado lírico.
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Brisa, luz, o latido daquele cão escuro na Paz – a boca se move o rabo se abana e o som chega depois –, luz, o parque nem vazio nem lotado demais, zzzrrriiiiiii-zzzrrriiiiiii faz o carrinho ao controle remoto de um meninozinho correndo atrás, o latido do cachorro escuro não para – deve estar preso na coleira amarrada talvez abandonado para nunca mais (mas rabo e boca ainda se alvoroçam antes do som) –, brisa, luz.
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Uma mãe filma com uma minicâmera o casal de filhos andando. A maré da luz faz amarelo no verde da grama e entre os verdes escuros e os quase laranjas muito brilhantes. Seria o caso de se perguntar como é que todo mundo não para e contempla de queixo caído. Não parece dezembro, não parece verão chegando, mas bem que parece o trecho de um grande ano dourado.
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Olho as horas e não acredito: 18 e 1.
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(Andando mais de bicicleta, ao som de mais Tom, um casal de namorados num banco, com o vigor suave do sol por trás, está rindo (um do outro, um com o outro) e me olham como se por um segundo eu dissesse alto atenção para a foto e por um segundo eles me respondessem rápido: vê como somos felizes.)
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12 12 98
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* and a window looking on the mountains and the sea how lovely...
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