VI 37

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Tempo feio, cinza opaco, chuva fina, o guarda-chuva nos protege, a mim, caneta, papéis, banco, e frio, enquanto no calendário se aprende “é verão”. No clarão da alva se revela o mundo (Fausto, Goethe), ainda que essa não me revele lá essas coisas, nem nenhum sinal de que é véspera de Natal – o verde das árvores não festeja especialmente, a elas é mais um dia maravilhosamente comum, ou normalmente fascinante. Correr ou andar na chuva vá lá, mas o que faz esse doido escrevendo de guarda-chuva num banco aguado, é o que pensam os que passam, meus conterrâneos desse dia enviesado. Uma mulher cruza a paisagem e logo em seguida uma outra, ambas parecidamente engraçadas: a quase corrida é inclinada, o andar assim dobrado é duro, as quatro pernas socam o chão, o quadril da primeira é grande e parece de um material sintético, agregado; mas por mais que algum absurdo intruso completamente imprevisto as possa estar observando e, o que é pior, descrevendo, vão concentradas nas suas metas, relaxadas dentro do possível, exercitando suas disciplinas, de corpos e espíritos. Um batalhão de uns 30, entre homens e mulheres, passam trotando, conversando, sorrindo, enroscados numa animação de fim de ano, não dando a mínima bola à impertinente (e progressiva) queda de tanto pingo gelado. A sonoplastia do guarda-chuva estala mais alto. De manhã, chuva, e curiosamente nem um mínimo de brisa; as gotas viajam lá de cima e irrisoriamente balançam as folhas imóveis. Absurdamente eu devia ter trazido um casaco. Ao longe a Paz desolada; o parquinho nem se fala; só mesmo a pista com seus proverbiais transeuntes. A rota das gotas cresce invadindo a restrição do guarda-chuva, o ataque é cada vez mais em massa, minha área limite se perde. Feliz Natal, parque.
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24 12 98
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* Os passarinhos não perdem o rebolado, cantam a todo custo, desesperadamente?, valentes.
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