VI 38

.
.
.
O sol parecia querer voltar dos últimos dias exilado, mas o expulsam de novo. Um sujeito concludentemente engraçado passa andando de leste a oeste; é baixinho com o corpo evidentemente inclinado, pra trás, mas apesar da posição favorável não olha para o alto, olha pra baixo, mas apesar da direção do olhar está de astral elevado, sorri e fala baixinho, põe-se a mão no fogo por dizer: está apaixonado; a camisa listrada horizontalmente e o cabelo cortado rente com um topetezinho e o nariz adunco lhe dão um toque especial. Concludente também é o inglês pronunciado em claro volume dos outros dois sujeitos que passam, e a música específica dessa dupla saxônica remete de pronto ao arrulho dos pombos, que afinal estão por aqui também, mas calados. Mais outro sujeito passa falando sozinho – esse falando sozinho mesmo (pensando melhor, o contrário: aquele falava lá consigo, esse de agora, no seu desvario de solitário, discursa, fala com os outros; no entanto a fala não é agressiva nem tão alta, chega a ter uma sutil docilidade: se comunica ao parque, aos que passam, a todos, mas se estivesse num deserto de Marte seria a mesma coisa, já completamente descrente da validade do próprio discurso); empurra um carrinho de mão cheio de tralhas, ...e lá tem um monte de cavalo morrendo... e não sei quê que diz mais, e segue ininterrupto. Inhico-inhico-inhico... – por um instante penso que o som sai de mim mesmo ou de algum bicho se alojando por perto; é de uma mulher andando comum como os outros no famigerado caminho e a sola do seu tênis direito (só dele) faz o barulho; ela está de walkman, talvez nem se ouça. O sol insiste e pede revogação do processo, mas os ares do céu terreno oscilam. Contudo, esquenta.
.......... Um casal vem, o homem puxando uma cadela boxer pela coleira – no meio da pista ela simplesmente para e se deita, de cansada. Com o tranco o homem para e compreende a situação com uma risada, se comunicando com sua mulher loira num olhar sem palavras. Ele se abaixa e agrada a cadela com tapas, ainda rindo; ela parecendo devolver o riso, apesar de cansada; a loira impassível, nem isso nem aquilo, de óculos escuros. Por trás deles vê-se um senhor barrigudo e bem calvo com o resto do cabelo grisalho segurando um velocípede; caminha querendo tomar o rumo do túnel embambuzado avisando: Maria Clara, por aqui, ó... Maria Clara! Mas a Maria Clara não dá nem bola, sai correndo com seus 40 cm e cabelos cacheados e roupa rosa pela pista afora rumo ao leste; adultos desviam. O senhor barrigudo (agora mais barrigudo ao tentar correr) larga o velocípede no caminho – a poucos metros da boxer – e se apressa à caça da Maria Clara; a rapta e finalmente os três, ele, ela, velocípede, somem pelo túnel. O casal socorre a cadela e a leva aqui à grama, lhe dão água da garrafa, bebem eles mesmos, esperam um pouco, retomam a marcha.
.......... O sol, contra previsões funestas, consegue impor-se mais e mais e parece conquistar a complacência da Justiça.
.......... (Um – mais um outro – sujeito, sem camisa, de óculos escuros de plástico, passa num andar acelerado pondo em prática um exercício bem personalizado: estica intercaladamente os braços e daí as mãos com os dedos, parece um nazista esculhambado, saudando um Hitler fantasmagórico que já não inspira tanto respeito. Hoje é um daqueles dias em que parecem abundar vestígios, vá saber por quê, não sei se sou se são eles, fartos caminhos, vindímicos.)
.
26 12 98
.
.

Nenhum comentário: