VI 40

.
.
.
O ano estertora, finito, como o dia – com um sol e nuvens lindamente a pino despedindo 98. Os corredores (São Silvestre, prova das mulheres daqui a pouco, dos homens no fim da tarde) já não treinam, estão na Paulista se preparando para a largada. Aliás de onde vim agora há pouco. Tranquila de carros, batalhões de polícia se organizando, os corredores se alongando, público, bares com as mesas se esparramando, repórteres, o palco no centro esperando a Daniela Mercury à noite, no fim (ou começo, para os lados daqui, opostos aos do Belas Artes) uma grande carroça de Hare Krishnas, homens e mulheres dançando, o cheiro delicioso do incenso varava a avenida; na calçada um vendedor de gigantes bolas com todas elas sobre a cabeça num saco de rede fina – parecia a árvore florida do Planeta Colorido, seja lá onde ele seja. Quem diria: à Paulista toda, pelo meio da pista, de bicicleta. A ida até o alto, difícil; a vinda, nem dois minutos e quase sem pedaladas. Meu banco. O parque tranquilo, como toda a cidade agradecida e assustada consigo mesma por ver-se ainda capaz de tranquilidade. Dois casais se cruzam, os dois homens se conhecem, parecem encantadoramente calmos, são quatro sorrisos simpáticos, é um papo gentil, descontraído, depois se despedem – serão meus olhos “amorosos” por um dia assim presenteado? O ano morre. O outro está em trabalho de parto, as contrações se esgotam. Vou ao bebedouro encher de água a garrafa de Gatorade vazia.
.
*
.
O vendedor (um outro, não o de costume) se aproximou e descarregou uma verborragia compensatória da sua solidão de comércio. Falou por uns cinco minutos (deve ter sido menos, mas pareceu tanto) sobre uns moleques que passam, lhe enchem o saco, e ele foi parar na delegacia por terem o acusado de xingá-los quando só queriam alguma doação mercadológica. Falou, falou, voltou, se sentou, está lá, ora o olhar baixo, ora alto mas mudo. Ninguém compra. Também, poucos passam. Se tiver coragem de não ser fisgado a um novo discurso, lhe despacho um feliz-ano-novo ao ir embora.
.
*
.
Fogos isolados, quero dizer: rojões, pela entrada do ano. O caminho das nuvens sorrateiro se fecha. 98 inapelavelmente põe as cadeiras sobre as mesas e o garçom que varre se apressa para não perder o ônibus. Contagem regressiva. Depois contagem regressiva do outro ano, depois contagem regressiva do jovem século, tudo é contagem regressiva, diz esse vento arrastado pelo prateado das nuvens. Mas não existe tempo, AGORA é uma palavra única, afirma em silêncio, eloquentemente a procissão dos verdes.
.
*
.
Preciso ir ao banheiro.
.
31 12 98
.
* O caminho voltou e se reabriu.
.
.
.

Nenhum comentário: