VI 41

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99. Depois de uma meia-noite com uma lua deslumbrante próxima às Três Marias, o sol irretocável ilumina a manhã primeira, indiferente à cronologia dos homens. Aquele casal que chegou comigo pelo túnel parte à sua volta no parque todo, daqui a pouco (uns 40 min) surgirão aqui do outro lado, ele soará seu assovio específico e iremos embora. Vão ambos de branco, fora o azul da camisa dela; o andar é num ritmo preciso, lado a lado, passo a passo firmes. Têm lá seus quase 70 anos, 1 m e 60 e tanto, ela mais baixa que ele, ele de cabelos muito brancos, ela de cabelos muito negros (não tingidos por mais que pensem o contrário). Ela tem o peito mais expandido, eleva de chapa à sua frente o azul que veste; ele com as costas em curva levemente, tem na cabeça avançada o mesmo azul que ela lança; e os oito membros vão idênticos, já são de uma mesma tribo há muito tempo, conhecem seus ritos, quase se vê o fio encantado que os ata. Somem entre os habitantes do ano novo. A propósito são meus pais, ela se chama Olga, ele Helio.
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Como nunca viera àqui nessa data, me parece bastante gente pra um primeiro de janeiro. Muito mais gente acompanhada, parece. A solidão guarda-se para os dias úteis. Uma música não sei de onde, esquisita, vem lá do fundo, parece que alguém enterrou um grande rádio sintonizado numa estação chata. Um plimplimplim de pianinho acompanha uma batida marcada.
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Ainda que com rasgões esparsos o céu prateia, e, parece (já que, parece, parecer parece ser o verbo daqui por excelência) parece que tudo com ele.
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As retinas invertem secas as imagens, não sei o que dizer. Passam em silêncio, alguns falam, a música chata está, longínqua. Longínqua como o ruge-ruge dos carros, como o do avião, invisível desse ângulo. Ihhh... eu quero i nu paiquinho... chora o menino ao lado da mãe calma que ainda lhe diz: amanhã a gente vai. Calma nada: lá do outro lado, depois de atravessar o que daqui se vê, lhe estala um tapa nas costas; o menino não para o choro. Um dos poucos sozinhos vem no sentido contrário dizendo coisas consigo mesmo revoltadamente; aponta o espaço, o dedo em riste. Parque de repente caótico. Um grupo de 2 com um outro de uns 4 param e se cumprimentam pelo ano novo, compensando mais ou menos a onda dos irritados.
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A luz enxota a prata, volta a se esconder, volta e enxota, o mundo de pessoas nos dois sentidos continua passando, nada se fixa. Mal tem vento (mas foi só falar e bateu uma brisa). Precisava de um alongamento, mas o que se faz com esta preguiça?
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O assovio não aconteceu mas chegaram furtivos aqui por trás, estão sentados cá comigo.
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1 01 99
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