VI 42

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Toró. A cidade recebeu de presente o champanhe estourado de córregos transbordando, bocas-de-lobo engasgando, móveis na enchente. De primeiro a segundo à noite as casas de janeiro tentando destransbordar-se, é como disse o moço no jornal da Cultura: e os sapatos da gente são os que vão logo nadando. Não só nas cercanias daqui, também nos arredores de mais ali, aguaceiros vários, Malásia, tempestades de neve nos Estados Unidos, a bela natureza. Agora só poças, uma chuva fina, o tempo fechado como no início do mundo (não, não sei como se fora o início, mais caberia dizer fim, mas a frase me saiu desse jeito). Sentado pratico uma nova técnica, apesar do derradeiro relato: um saco plástico entre mim e o banco – por cima o já usado guarda-chuva, é claro. Apesar das chuvas, apesar do que seja ou que venham a ser os próximos anos, aqueles verdes ali do parque ainda pulsam, resplandecem, ignorantes e sábios, sem ironia. As árvores dos dois, a do nosso João, a do nosso Carlos, aparentemente são as mesmas, conscientes da existência perfeita – mas a meus olhos são diferentes, com um passado próprio. Já há uns 5 vestígios não se vê o Drummond, e quando cheguei perto o que encontrei foi só uma plaquinha de metal (talvez de identificação), pregada mas rasgada ao meio mais acima no tronco, de onde cheguei a arrancar e na qual se lê
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PREFEI
SÃO
707
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– quanto ao texto nem rastro, nem vestígio, talvez o acaso de uma mão cega, de uma ignorância brutal, o tenha usado para acender o fogo nalguma cozinha, diria Henry James, ou então virou lixo, ou alguém o recolheu com carinho. Chega-se ao fim; haveria de ser de algum modo. Poucas gentes passam, os que não estão aqui estão viajando, os que não viajam estão em casa, os que não estão em casa vão ao cinema (aonde pretendo ir daqui a pouco); os que não estão no cinema estão no caminho entre dois desses lugares. Dia triste? Não sei. Um dia como qualquer outro, me diz o parque. E agora levanto a cabeça e surpreendo-me de ver três, quatro, cinco crianças nos balanços lá longe, subindo e descendo, alto, ouvem-se gritos, risos, com certeza mais empolgadas pela água que as cobre. Chega a ser engraçado ao pensar no barro daqueles malditos córregos transbordando. E nesse exato instante estou com sede.
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2 01 99
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Ibirapuera, jul.2010
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