VI 5

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À minha frente, bem no limiar entre mim e a pista onde passam as pessoas, há um pé de jacarandá (?) que literalmente chove suas flores rosa – no ar, no chão da pista, da calçada e da grama daqui. Absolutamente todos que passam admiram o acontecimento. (Já caiu muito e me pergunto até quando haverá flor pra cair (mas ainda tem um monte lá no alto).) (...) Quem vem vindo é uma mulher – 1 m e 80 mais ou menos, tênis brancos, calça de moletom marrom escura, a parte de cima, preta, enrolada na cintura, uma camisa vermelha de manga comprida, cabelos castanhos até o ombro, frisados, é obesa (uns 90 quilos?), quadril e coxas grossas, com todo respeito se fosse um bicho seria uma aliá, sem que isso, de verdade, signifique feiúra – é uma aliá jovem e vigorosa, cada passada é firme e parece levar o espírito leve, contente de caminhar aqui e agora. Usa uns óculos escuros como tiara; só quando passa bem dentro da chuva e sobre o tapete rosa é que percebe o que acontece; olha pra cima lentamente, lentamente diminuindo a marcha, e segurando os óculos com uma delicada mão esquerda repara na copa soltando as flores. Dá um sorriso muito sutil mas muito bonito, e então retoma seu ritmo, seguindo na direção em que vinha. (O tapete está mais denso e a chuva diminuiu bastante. 3 ou 5 flores, pausa, mais 3, 2 ou 5, pausa, assim por diante. As pessoas continuam olhando, se encantando; às vezes param, às vezes comentários, que lindo... olha... um ou outro pega uma flor e leva.) (Parece simples metáfora inventada mas não é: agora mesmo um carro de polícia passou devagar bem no tapete, esmagando uma parte.) (Agora mesmo um homem ficou olhando o tapete, a árvore, o tapete, foi, voltou, parou, reparou... até que tirou uma máquina da mochila e tirou uma foto.) (Começa a garoar bem fininho.) · Indo embora, o tapete parece uma gota de tinta viva caída do céu.
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14 07 98
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