VI 9

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Domingão, sol (ameno) do meio-dia. Lotado. As pessoas já não passam, estão em passeata. Grupos de homens, mulheres, solitários, bicicletas, crianças, carrinhos, cachorro de todo tipo, nas coleiras, policiais de motocicletas, de carro, pássaros, muitos casais, o amor em alta. No meu camarote um homem está; encosto-me num tronco ao lado e escrevo em pé. Lá pro lado oposto à costumeira avenida vejo o fundo do palco e por entre as árvores a multidão da plateia; a música não distingo – primeiro um batuque, deve ser um conjunto (agora tocam Barracos do Gil, mas não se trata dele). [O homem do meu camarote saiu, re-aposso.] (...) Levanto a vista e dou de cara com um rapaz. No meio-fio ele está de costas pra cá, a camisa branca de futebol estampa um 10 preto, não consigo ver o time, provavelmente Corinthians ou Santos. Tem o pé direito no pedal e só o esquerdo no chão; de pé, as pernas trançam os canos da bicicleta curiosamente. Cabelo curto quase careca, bermuda cinza, meias e tênis. Parecia olhar a vista, a correnteza da gente – daí chegam outros dois ciclistas e, mais do que assistir à via, ele esperava. Os dois passam por ele, trocam três palavras, os segue; somem no vigor da profusão da gente. (O show acabou. – silêncio de lá mas por essa omissão se intensifica a zoeira daqui) Venta, sol, nem frio nem calor, dia fantástico. [O homem que estava aqui era magro e barrigudo, uns 70 anos, pernas finas, sem camisa, cabelo ruivo e ralo. Assentava no lugar que eu sempre ocupo, mas pro lado de lá – de frente pro fundo do palco, de costas pra “minha avenida”. No resto do banco a camisa dobrada e o restante do jornal que lia. Na cara uns óculos escuro-alaranjados.] (Aquilo de um só relato a cada dia é em termos. Só aqui já foi o rapaz futebolístico, o homem do meu banco, fora um pouco do parque... De outras vezes também o parque, a árvore, e não só uma pessoa mas um grupo. Só se a religião de cada dia se cumpre não a um só relatado, mas a um só espírito, abrindo a janela dos sentidos diante tantos milhares de minúcias relatáveis.) Tudo está muito agitado – vale dizer mesmo: vivo –, até insetos inusitados despencam, e galhos no meu cangote.
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26 07 98
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