VP 10

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(D) ..... Se nos últimos tempos alguém de São Paulo parou a pensar nas vontades da Natureza deve ter-lhe passado à cabeça nunca mais vai fazer sol, nunca mais a luz vai ser de chapa, e nem vai chover também: pra sempre o céu se trancou nessa tampa, nem chove de vez nem resseca, às vezes uma garoa às vezes uma abafação (às vezes com minutos de diferença, e vai-e-volta), a temperatura oscila da chama ao pavio do pavio à parafina seca sem deixar de haver a tampa das Grandes Nuvens inexpressivas vedando a nossa panela. Hoje o sol saiu. Finalmente tudo rebrilha. E um vento ameno tira a poeira do frio da cômoda dos objetos: os prédios visíveis bonitos como flores, as flores lilases daquele monte de moita de onde sai do centro uma árvore guarnecida pela açoteia delas a balançar não como os prédios, a balançar como estas na direção oposta na praça, laranjas, não em moita nem açoteias, sozinhas como uma com seu estandarte, a infantaria das folhas, em guarda. Mulheres passam – só as mulheres entram na praça? – uma (mãe ou avó) com a menininha de chapéu colorido, uma senhora velhinha com um cachorro branco e peludo, uma outra a passos lentos com sua bengala, outras cruzando em direções opostas indo ou vindo de um trabalho, um único garoto passou no começo de bicicleta, e agora há pouco um homem de óculos atravessou e entrou na igreja, talvez o padre. Duas rolinhas, aqui mesmo no banco de hieróglifo em que estou sentado – só que eu na ponta de seu rabo e elas lá no ápice da curva –, estão deitadas como cachorros, escondendo as pernas sob os corpos, tomando sol lado a lado com cada cauda virada a um canto como esses pássaros de enfeite de mesa. Até há pouco podia-se ouvir aquela mulher com a menina, o murmúrio chegando de longe, varando os troncos, o vento, a conversa das vozes voando e se infiltrando passageira, indecifrável. Eu queria saber o nome daquela árvore, no centro, alta e calma ao lado do poste, tão reto e fino e diferente dela, mas também alto, e calmo, com sua cúpula transparente que se abre pra cima como uma campânula sob um prato de metal contra a chuva, abaixo é pintado em vermelho, o poste futurista, a árvore ancestral, com calmas e altitude, parece que olham o mesmo ponto no horizonte apesar de ambos terem 360º de visão, a árvore e o poste o poste e a árvore, paralelos, são um casal.
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(C) ..... A praça é uma placa de paz imposta na cidade grande, apesar do barulho, apesar do ar não puro, apesar dessas fezes de cachorro que o sol e as moscas querem ressecar ou sem querer secam. Embora as árvores não sejam tantas. Embora as árvores não sejam tantas insinuam as florestas, a existência delas, em algum lugar.
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4 04 00
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