VP 11

.
.
.
(A) ..... Há uns dias o inverno abria as portas no coliseu do seu desfile. Colisão: entre suas carruagens frias e a plateia impávida, de mangas compridas, sem expressão na cara, sem conversas paralelas. Teoricamente era outono, mas como o dia-a-dia só é teórico enquanto não chega, o cinza e o vento estavam dizendo somos do inverno, chegamos, viemos fazer a festa, sem confete, sem samba, com uma pinga que fica só na vontade, pois não trazemos copo nem servimos. Agora é este outono prático, lendo o realismo. As palavras são a praça, embaixo desse céu azul a pino, o sol em declínio trespassa de lado todo o laranja luminoso. Luminoso nos troncos, luminoso no verde já não verde dos relevos gramados, luminoso e aos pedaços nos oito garotos jogando futebol e nos outros oito que assistem da arquibancada. Luminoso nos topos das copas. No pai com a criança e no som dela o chamando e os dois indo em direção ao sol se pondo. Não luminoso na árvore central já em sombras, luminosa pelas próprias pétalas brancas a compondo tanto (ipê-branco?). Os garotos continuam jogando, assim como eu com seus sangues de pretos de índios de brancos europeizados ou amarelos asiáticos, sabe-se lá mais de onde. Ontem 500 anos do Descobrimento. Que descobrimento? Dos portugueses atracando, o ferro das âncoras fendendo as areias intrigadas, receptivas ali na Bahia (quando ela ainda não se chamava assim, quando ela ainda seria sem H). Que floresta estaria aqui, que bichos dormiam neste ponto que viria a ser uma praça? Que caminhos indígenas, que índio passando ou vendo o outono se se regredisse o tempo redescobrindo o descobrimento (ou descobrindo o já encoberto) até chegar até lá? Provavelmente um ipê nativo ou milhões deles juntos ou um pau-brasil vermelho-vivo renasceria nesse banco me jogando para o alto, me expulsando desse suposto estado contemplativo de 500 anos.
.
* Chego em casa, leio num livro: A florada [do ipê-branco], nos meses de setembro a outubro, é realmente espetacular. E sobre Tabebuia, seu nome científico: de origem tupi-guarani, significa “que boia, que flutua”.
.
*
.
(F) ..... Aqui os tamoios faziam uma fogueira. Ali onde aquele casal se abraça uma Ceci e um Peri se abraçavam talvez com nomes mais bonitos ainda. O casal dali é mulato, ele mais escuro ela mais clara, mais ali uma amiga, loira, e um pai bem preto jogando uma bola para o filho; as crianças em volta não têm cor, estão indistintas a essa distância já na penumbra crepuscular. Que nomes terão? Todos tão anônimos quanto os índios que se abraçavam. Ou aqui era tão intocado até pelos índios. Só esse som de cigarras, de ventos, de movimento de um bicho; dentro da nossa cabeça deve haver uma espécie de máquina do tempo – afinal escuto; afinal aqui em que está tudo isso é o mesmo lugar em que esteve aquele tudo. Aqui piso no caminho não pisado. Aqui sinto o cheiro do fogo.
.......... A mãe do menininho (pequeno piá) que jogava bola e agora empurra o velocípede, há pouco o ajudou a se sentar quando ele se deitara no piso. As luzes dos postes e de dentro do salão de uma loja vazia do outro lado da rua acendem-se brancas e iluminando para baixo; grandes pirilampos, ininterruptos.
.
* E sobre os tamoios, numa enciclopédia: Indígenas tupis brasileiros que habitavam o Est. do Rio.
.
23 04 00
.
.

Nenhum comentário: