VP 13

.
.
.
(E) ..... Inverno – é o que diz a técnica do calendário e também a viração desse friozinho depois da chuva de ontem quando não chovia há trezentos anos (O ar choveu fresco como diria o Zé Mariano no seu Entremeio), as plantas agradecem, agradecem o pó fora do corpo, os pólens revigorados, a ar arável de novo. Aquilo que era um caixote de tapumes pretos agora já é um edifício pronto, estou frente a frente com ele, ele me vê entre a ramagem das árvores enquanto eu o vejo idem, e vejo nas suas janelas de espelho preto retangulares os outros prédios refletidos também parados e olhando. A grande placa: ALUGA-SE. Supõe-se que tem escritórios disponíveis, mas se você tiver dinheiro pode levar o prédio inteiro, em São Paulo quem tem dinheiro tem tudo, é o que diz seu design de dois planos encaixados e no topo o heliporto, sem helicóptero. Entre mim e o imponente espelho negro um outro banco de frente a esse meu em qu'estou sentado, portanto de costas para o prédio alto, nele um casal de mendigos – mendigos? sem-teto, desabrigados ou homeless pra ser chique – monologam um com o outro entre sacolas um copo uma garrafa de coca-cola vazia mais da metade, ora um canta sozinho, ora a outra canta sozinha; ora parecem conversar, mas é como se cada um jogasse a sua fala a dar a volta no mundo antes de voltar ao do lado. Ela agora pôs na boca um cigarro, acende e jogou o fósforo; quando passa alguém falam, presenteiam com um canto ou um minidiscurso. Voltam ao copo, à garrafa, ao cigarro; ao lançamento das falas, foguetes entrecortados. É como se posassem para mim em movimento, a modernidade do prédio os emoldurando, olha nóis aqui é pra você mesmo, vai relatando, vai relatando, mas quem sou eu pra descrever tanto vocabulário, tanto descompasso, tanta riqueza de detalhes num só banco. Banco pobre, rico – e o espelho liso sem detalhes no fundo. Na vinda o sujeito estava sozinho e passando por ele me disse um quando a pessoa não quer falar com a gente qu'é que se vai fazer? nada... a gente tem que respeitar, não sei se se referindo a outro que passara e a quem parecia apontar, não sei se a mim mesmo que sem entender num primeiro momento e depois num segundo meio receoso ou desinteressado passei reto e vim sentar aqui, e daí – de longe – me interessar.
........ Na síndrome pré-feriado os carros da cidade procuram um espaço num dos caminhos da cidade para o quanto antes deixarem a cidade – não querem mais saber do seu nome. A luz clara vaza dos grandes blocos de azul, as nuvens, pequenas, licenciam a passagem dela e a delas mesmas se ajeitando a que passe. Um avião do tamanho de um isqueiro aceso num estádio passa muito luminoso e lento ligando as bordas de dois prédios na faixa grossa de azul. A mulher canta bem alto – faço o que fizer, não reconheço a canção. O cara fuma, fala um pouco, com seu boné. A estela do prédio às costas, aparentemente os amparando. Aparentemente os três calmos, tranquilos, impávidos, às vezes balançando às vezes apenas monolito, assistindo – ao contrário dos carros correndo dentro do possível na sua Tensão Pré Folga.
.
*
.
(D) ..... O azul esmaecendo.
........ O frio chegando mais perto.
........ Nuvens cinza. Duas, seis, dez, desfiadas, infindas.
........ A praça vazia. Para não dizer tanto, uma senhora com um cachorrinho na coleira – passa em silêncio – um garoto com mais um na coleira encontra uma garota com sua outra coleira e cachorro e conversam – em silêncio pela distância.
........ O borrão de uma ex-fogueira tatua frio o cimento próximo.
........ Do outro lado da rua o flores em neon vermelho. Ilumina solitário sete girassóis encabeçando seus círculos, talvez falsos.
........ O arvoredo de um dos jardins do hieroglifo antes de ser bosque é um conjunto de troncos contorcidos bonitos mas quase sem viva-folha. Chão, muita terra; grama zero.
........ Eu não fui falar com o casal porque... Por que eu não falei com o casal? Ao menos para saber os nomes, oi, eu sou Otacílio, eu sou a Jandira, olereuê, lá-rá. Eles tão nominais quanto a cidade anônima de cansaço.
........ (Com aquele toco – tição, restolho dos restos mortais da fogueira – pode-se escrever um nome, seja um dos do casal, supostos, seja o da cidade, no chão aqui do lado.)

.
21 06 00
.
.

Nenhum comentário: