VP 14

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(E) ..... O casal já se foi, o prédio persiste; o casal se locomoveu, o prédio é inerte. Sim, aquela chuvinha veio pro bem (O ar choveu fresco. Tirei meu chapéu. Foi um descanso.), no ar parece que passaram um pano, ontem, passando naquela praça (a A) os deuses estavam realmente bem humorados, a luz da tarde que vinha de lado era leve e suave como o azul que a enlevava e recebia – toda a praça era de uma suavidade elevada absurda – e o Sol em queda era dois no crepúsculo: um o real, se indo, outro quase igual refletido num outro prédio espelhado; dois sóis paralelos; crepúsculo duplo. Hoje-agora a luz não é tão encantada e estranha, mas ainda é limpa (e azuleja de ponta-a-ponta com alguma renda muito fina das águas gasosas), apesar de que muita planta ainda grita acuda e a velha moderna poluição é a mesma. Me sento sob a goiabeira. Os troncos da escultura central marcam sua hora torta. Um homem senta-se muito calmamente num banco lateral recebendo o sol matinal à direita – toma um banho com ele, o inspira. Num banco ao lado do seu (nossos três formam um L) chega uma babá com duas crianças, uma menina e um menino menor que ela, a babá se senta e as duas se libertam, não vai corrê lá pra longe!, a babá proclama. Tudo está sob o sol. Até os prédios, até os seus lados negros, até as sombras por exemplo dos bancos ou debaixo da goiabeira levando dentro uma luminescência. O ar fresco... aceito. O casal pequeno corre ainda, entre gritinhos e risos. Na verdade eu não escrevo tudo isso in loco, eu me retrospecto (me des-loco, me locomovo) até lá onde já é um “agora há pouco” – porque quando ia começar vi que fatal e lesamente a caneta não tinha ido, quando então me pus a ver só com os olhos, sentir só com o corpo, quando então, resignado, pensei como agora ainda penso como é que uma mísera caneta pode ser tão indispensável.
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23 06 00
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