VP 15

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(G) ..... Um frio de rachar sepultura. Um cinza de rachar o bico. Pior o de ontem à noite (frio, o cinza virou-se em negro) que realmente rachou, mas os mortos não saíram, ficaram tiritando ou pulverizados de congelamento. Pior para os vivos, sem buracos em muita calçada viaduto ou praça, como aqueles dois aqui nessa (entre trapos e cobertas sob aquela copa felizmente imensa) tendo tiritado ou tiritando, que tiritarão de teimosia, de vontade de vida, de medo da morte, de bravura cega. Uma chuvinha fina mal cai mas molha. (Alguém que no futuro lê isso vendo as palavras passadas a limpo nunca desconfia da dificuldade que tentam transpassar nesse agora: as gotas com sua insídia molham a página a marcando invisíveis e quando a escrita chega, derrapa, borra-se.) No chão como no das outras praças em que passei pelo caminho, várias folhas caídas como um outono sem aviso embebido em inverno. Folhas molhadas, tudo molhado, de certa forma menos o ar ainda ressequido, poluído, ressentido pelos tantos dias, semanas sem chuva incluindo hoje se não se levar essa a sério. Não muito séria mas a praça a recebe, umedece; por isso esse plástico que trouxe comigo e serve de assento e na verdade não anda servindo muito – será que aqueles dois da árvore têm algum plástico? Assento sobre o “templo”, a ruína da antiguidade. Pintaram-na de branco (já havia falado nisso?), pelas laterais e nas muretas que se ramificam, um branco vivo, rápido (veem-se milhões de pingos dos pintores apressados talvez fugindo de um dia com sol torturante), a arqueologia desse sítio ficou com uma cara anacrônica com seu esqueleto antigo e a massa corrida de modernidade. A praça está completamente vazia, a não ser por mim e os dois deitados (na não-sombra da árvore) – há tempos uma mulher passou de guarda-chuva e agora há pouco um homem atravessou subindo o zíper da jaqueta de couro. A não ser, é lógico, também pelas inúmeras plantas – inclusive até bem tratadas, ou o estio dos últimos dias é que as ceifou com cuidado. Aquela vermelha; aquelas de flores muito rosas; as palmeiras; aquele – cedro? – sem nenhuma folha. Ali à frente os restos de uma fogueira – cada vez tem mais, espalhadas, apagadas nos “passeios públicos”, restos dos rastos do povo brasileiro, nômade. (Escrever está ficando impossível, esse papel tá virando um pântano, até a aba do boné vai contra pingando na folha. Vou ver se chego em casa e a enxáguo, torço, passo a limpo.) 1, 2, 3, 4... quatro postes magicamente se acendem. Do outro lado da rua o cabeleireiro chique a todo vapor atrás da parede de vidro – é sábado, há muito preparativo a festas. As luzes dos apartamentos, os dois na mesma pose sob a copa (um sentado parece mordiscar alguma coisa), a uns três metros da fogueira há um resto de toco, grosso, ainda não carvão, apagado como ela.
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15 07 00
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