VP 18

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Tempo feio. Como se o tempo tivesse aspecto. E tem, o desse cinza insosso, o desse ar chocho quase parado em pós poluídos, o desses bancos quase completamente abandonados, a não ser por aquele sujeito ao lado do outro, sentados e olhando, olhando e sentados, vagos, o desses pedregulhos saindo dos chãos destroncados, o dessas árvores com muito silêncio, o desse martelo ou marreta surpreendendo com alguma reforma por trás do muro, o dessa falta de palavras capazes de transcenderem tudo isso. (Falando em tempo um daqueles dois levantou-se e apontando a um dos pulsos me perguntou de longe: tem horas aí?) Parece que a chuva vem vindo, parece que a chuva está de bote, mas não chove. Ao pé daquele banco o vasilhame de cerveja, casco marrom sem líquido, no gargalo repousada uma pilha de copos – de plástico branco. Aquele gato siamês: para na moldura formada pela passagem das muretas, olha para trás um instante, só o bastante para que eu o veja e some como se nunca acontecesse e nunca pudesse voltar a ser. O poste acende-se; o branco da sua luminosidade é de um branco muito mais branco que o da tinta dos bancos e contornos que o das pétalas daquelas (rosas?) a maioria caída que o daqueles três pombos um muito gordo e arrulhando que o de alguns pontos do céu em movimento – brancos... cinzas... amálgamas... cinzas, brancos... – que o dos copos; mas é sozinho (falo do poste), o branco elétrico do seu olho está mais sozinho que os outros brancos. Sua artificialidade destaca-se, destoante, no opaco da paisagem. É à tarde, o meio da tarde. Chove finalmente, se é que isso se digne, esses alfinetes de umidade atingindo as superfícies, a folha do papel, a minha pele.

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3 08 00
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