VP 19

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(C) ..... Só árvores através de árvores. (Guimarães Rosa, Tapiiraiauara) Antes fosse. Aqui entre os vãos apesar de ser domingo a cidade corre. Como aquela ambulância com seu giro e seus gritos correndo com ela. Como os caminhões e o carro-forte e os dois ônibus. Como os cérebros e os organismos por trás dos volantes? Como o avião – como é que não tropeça nos prédios? Como a poeira, aparentemente invisível, fazendo volutas e revoluções sobre a pele das árvores, principalmente daquelas na trincheira entre as vias contrárias, friccionadas pelas direções. Nela. Correm nela e com ela. A cidade é o grande organismo; a cidade é um microorganismo no grande organismo da Terra.
......... Mas há as sombras (estou numa delas) as sombras despencadas quase retas no sol “mediúnico” do meio-dia. O céu azul em tudo. O mamoeiro, médio, muito perto, sem mamões. Aquelas árvores de florescências vermelhas – mil pistilos peristilos pinos de folíolos em ponta – coroas com livre arbítrio, espinhos não sanguinários mas sanguíneos. Tem um chão dos seus traços vivos, caíram do enredamento do galhame, cuja sombra enreda seu mapa logo embaixo, logo embaixo no tapete aqui atrás, o tapete pontilhado, todo hasteado, hastilhismo em rubro em seu sangue. Um poodle branco todo cortado arredondamente vem não sei de onde e entra na praça cheirando sem coleira e sem donos. Vai até o meio, quebra à direita, some na moita que o engole. Uma dona surge da esquina, grita Bob Bob Bob, corre, agarra a redondância peluda, chega um carro com um homem – um dono –, a mulher e sua presa entram, o carro parte só na falta de pneu cantando, fim da operação poodle.
......... Pasmem: um galo canta; já cantou muito, vem dali do sudoeste – a avenida como sempre norte –, vem o seu canto, dele não se sabe, o seu canto desemboca entre as árvores, atravessa a praça até onde pode, morre na cordilheira sonora enraizada nas pistas. Passa mais uma sirene – agora da polícia; aliás quatro. Mais um avião não derruba o dominó de edifícios. Aquela formiga no tronco: pesquisa, e sobe; a borboleta: marrom-escura e de frisos amarelos, plana; um certo sabiá na outra sombra: segura um galho galhozinho no bico enorme (enorme galho no pequeno bico), olha erguido numa pausa, lorde, imperador-operário, contínuo segue, na lida, aos saltitos, constrói, colhe.
......... A rua Soberana é a calma. Não passa nada. É o marasmo, é o desespero de um tédio, diriam outros. É a simples aresta, um lado-a-lado dos maiores de um retângulo de uma praça.
......... (Meio-dia e um quarto, o Sol já se desce (ou a gente descende dele) de qualquer modo sombra a sombra se estendem e a luz se move sempre a olhos vistos.)

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20 08 00
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