VP 2

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(A) ..... O sol da manhã caustica sem piedade. Volto ao platô e os paralelepípedos só não pingam por via de algumas sombras das árvores e dos caminhos de mato baixo que cresce onde não juntam-se. Para não ser impiedoso com o sol é preciso dizer que ele traz seu ferrão mas traz também o azul, traz a movimentação ventando, traz aquela mãe empurrando o carrinho de um bebê e a vinte metros uma outra com um outro carrinho com um outro, traz um pai do lado extremo empurrando o filho – já menino – sobre o velocípede sentado e atento, traz este casal sentado aqui perto na renda da sombra da copa e conversam enquanto o seu cocker spaniel cava um buraco – chega até cá o zunzunzum do papo como abelhas rondando um casulo; ou vespas. Uma das mães ressurgiu depois de ter sumido, empurrou o carrinho até um banco, sentou-se e tirou o nenê de dentro, o põe no colo e dá uns tapinhas de carinho, brinca; ele parece rir, ou será um desejo idílico dos olhos (bucólico, dos óculos que perpassam o que vejam). A cena transcorre em muito silêncio; a sonoplastia é dos carros, de uma moto, embolada à do casal conversando, à de alguns pássaros, à enfim da caixa ressonante da urbana música – salada que não casa com o ato mãe-e-filho, paciência, o silêncio deles continua sendo transmitido, engolindo os seus sons supostos através do que interpõe-nos: a passagem de cimento frente ao banco, uma árvore logo à margem com sua copa em negativo no chão, a grama rala no declive do vale, a subida invisível, um tronco duplo decepado e roído pela intempérie ou por um castor gigante, o arbusto de folhas secas e galhos finos e algumas outras ainda muito verdes resistindo, o outro arbusto pequeno que mal se projeta e precisa de um pau que o sustenta, a grama já mais cheia que vem quase até meus pés onde a uns centímetros da fronteira paralelepípeda há um formigueiro. Centenas de florzinhaszinhas espalham-se, inclusive uma sobre ele, as formigas não mordem; uma borboleta de cor madeira até com os veios do corte vem e toca o mato e some; um maço vazio e amassado de Marlboro, já quase branco, desbotado.
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A sombra da torre, de lado, ziguezagueia no aclive do vale sua seda recortada; triângulos sobrepostos, vazados.
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(B) ..... Essa praça aqui, como muitas quadrilátera, só em dois lados dá em rua. Um de cara para o outro sustentam as paralelas estreitas, no cara a cara dos outros há muros de casas, do prédio, da escola. Dizer estreitas quer dizer ruas tranquilas, quer dizer que a da direita (de onde vejo) é menos que a outra, quer dizer que ainda assim são ambas de mão dupla. Um jardim de retas quebradas ocupa o espaço de quase todo o pedaço de uma das margens até o centro; dentro muita terra batida, plantas espalhadas, aquela amarela e laranja com dois copos, aquela só com quatro folhas largas, arbustos, sete árvores altas repletas de folhas de galhos daquele tipo que leva as raízes para fora e as sobem em fiapos balançando ou são apenas fiapos querendo ser raízes voltando pra baixo; outras árvores do mesmo tipo, mas podadas ainda nos galhos grossos, congeladas no crescimento. Outra de tipo indefinido; na verdade mais outra e mais outras à distância – uma (outra outra) mais perto, tem a rama bonita de verdes explosivos na sua penca de milhões de folhas; é baixa, espichada para os lados numa oferta, como se pintada a toque de esponja. Muitas folhas secas e soltas (nem todas as soltas secas) na área interna do jardim e fora dela, aqui, onde em parte é placas de cimento onde em parte é ladrilhado, em todas tufos de grama presa em montões de poeira que o ar direciona ou mesmo uns buracos, minicrateras, descaso. (Essa frase toda só é feita porque batera um vento e o enxame de folhas pinica as pernas.) Descaso como o naquele segundo banco da sequência: sua aba direita quebrada, como se um ogro o pesquisando pressionasse muito o dedo; saiu correndo assustado, deixou a aba caída, pendurada ainda por ferros, veias do cimento. Ainda não falei do que há além de jardim ou chão de cimento ou ladrilho: minijardins elevados, redondos, cada um com uma árvore dentro – às vezes mais de uma. Dizer elevado quer dizer meio metro; dizer redondo quer dizer no máximo uns quatro metros de diâmetro. Uma, duas... umas cinco rodas dessa espalhadas pelo espaço. Bancos, como já foi dito; à esquerda, em direção à rua mais calma, um outro traçado redondo como espécie de anfiteatro mas que não quis ser muito: um plano ladrilhado, espetáculos desativados, os famigerados 50 cm o delimitam intermitentemente num muro fino. Muro fino e baixo – mureta – que aliás é igual aos que margeiam as calçadas com duas brechas de entra-e-sai. Apresentações feitas, agora sim seria a hora de investigar os vestígios; mas agora eu vou embora, cansaço, o sol castiga sobretudo sobre as nuvens, mas quem disse que não há um bafo, a nossa sauna boa, tropical, e de vez em quando ele (sol) escapa nos abismos que as nuvens doam. Para não ser grosso, dois ou três pontos que não passam (que na verdade se impõem, não deixarão que eu saia até que se escrevam): ao sudoeste, 20 m às minhas costas, quatro rapazes cantam e tocam violão (sei lá que música; é um blãoblãoblão-blãoblãoblão e palavra é ininteligível); todos os postes (são sete: três em cada levada de muros, um no centro, de quatro lâmpadas) sabe-se lá por que razão estão acesos – em pleno dia claro, olhos de periscópios alienígenas, preparando a praça para um pouso –; à minha frente o muro baixo e a casa dele são de tijolo aparente, lego gigante de barro, no janelão de um vão interno viu-se o vulto passando – mesmo na rapidez dele identifica-se: mulher, uma senhora, olhando à vista baixa, provavelmente procurando o chinelo que o seu bassê escondeu; à base de um dos postes das pontas há ladrilhos sobrando numa pequena pilha – o ladrilhador foi embora, há muito tempo desistiu –; um saco plástico se levanta com uma lufada, faz a curva e some atrás da casa, entra na rua; um prato manchado ao lado do tronco num dos redondos elevados, talvez peça de despacho; um pedaço de galho desde o começo parado e cortado e jogado no chão como uma mandioca; palmeiras em mais de um dos quintais, as flores vermelhas no muro da escola, entre o jardim e o cimento há uma vala. Disse no passado: dois ou três pontos, e já foram muitos, deixemos outros pro futuro, que talvez já haja em algum nível de tempo. Agora vou-me embora mesmo, no mesmo caminho da vinda, ida em que aliás eu anotara, antes de tudo para pôr aqui depois: No caminho para cá o novelo fino de uma pequena nuvem, em círculo como a lua cheia.
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14 01 00
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