VP 20

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.(A) ..... A praça é uma maquete recortada de um quintal de gigante. A praça é uma capa, cuja tecitura reveste: as passagens sob a terra, as ondas geológicas, a continuação das ruas e casas que não existe. Reveste de verde, reveste de vida surpreendente neste dia que seria como um comum como os outros: ali no meio do vale duas mulheres e um carrinho de bebê e o bebê fora dele, anda, ouve-se sua voz de vez em quando; de vez em quando porque se ouve ainda a fala de muitos pássaros, dos carros, de motos, de passos das pessoas onde o caminho da praça tem cimento. Uma gargalhada; e eu não sei de onde. A buzina de uma moto ao longe; depois a mesma buzina do outro lado; parece ter dado a volta na praça e eu não vejo. (A gargalhada saiu daquelas duas moças com o sujeito sentados no banco daqui de trás da torre, por isso a invisibilidade.) Corvos? Uns pássaros pretos ciscando, um perto parece mesmo um gavião pequeno, um gavião aqui? (As mulheres com o carrinho mudaram-se da curvatura do vale para o plano da quadra de cimento. Lá ainda tem sol; o vale já vai se fatiando de ensombramento. São dois os “bebês”: tem uma menininha também, maior um pouco, talvez irmã, cabelos cacheados.) Não só pássaro: uma profusão de o que de longe parece dúzias de borboletas mas chegando perto é um bicho desses trilhões de bichos que eu ignorante ignoro, “inseto”, o chegar perto não foi meu neles mas de um deles em mim: senti uma cócega, levantei o braço, na manga do tecido um rastro logo identificável, de asas, acima lá ia o bicho desasado, um tubo negro cheio de pernas do tamanho de uma bagana, mexe a cabeça e fareja um rumo para o Reino das Asas Novas. Falando em sol o que eu já devia ter dito desde o começo: está em tudo; não a pino nem é nenhuma manhã exuberante de primavera, devem ser umas 15/16h, 16h de uma tarde estranhamente viva. Os 30º da epígrafe parecem querer vir mas não tanto, não conseguem quebrar o encanto do inverno. Talvez daí, desse esforço, o tamanho agito de repente pulsando, os sons todos que ontem ou amanhã seriam barulho hoje se harmonizam, cada um tem seu peso, seu espaço, e todos ocupam o espaço, ramificam-se; pessoas passeiam e trabalham, aquele senhor sentado, aquela árvore no centro e a outra do outro lado ao lado da torre – brancas flores – e mais aquelas, 1, 2, 7, esporádicas também em flor, róseas – manacás? (O “gavião” passou numa rasante, deu dois berros, pousou; estou começando a apostar que é um gavião de verdade.) Bem-te-vis cantam. Um muito alto no galho de um dos manacás aqui atrás. Aqui atrás como esse alto pinheiro de que só dei conta agora, será que o anotara de outra vez? A temperatura é outra e continua e evidencia ou quer denotar que afinal todo dia é diverso – único, pedra polida, própria – e mesmo se a marcação dos graus fosse idêntica, e o vento e a umidade e a radioestesia e etc. e etc., seria um outro, já que a gente é sempre diferente nos outros dias, a cada qual, pedra passageira. É, é gavião, não é possível; e às vezes ele de pé no chão pula e bica os tais bichos desasando que imprecavidos não sabem encontrar um gavião pela proa – ou sabem, exatamente por não pensarem nisso. A tarde está bonita demais para mais palavras. Graças a Deus (ou ao Deus dele) o gigante não quer retomar sua maquete, ou já arranjou um jeito de completá-la há muito com outra matéria-prima, essa parte aqui deixou na Terra, perdida, largada, (re)pousada.
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21 08 00
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