VP 21

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.................. A praça, o templo. Lugar de encontro. Os homens reunidos para a discussão, para o divertimento, para as rezas. Perguntas e perguntas, respostas, diálogos com Deus, passeatas, sermões, discursos, procissões, bandas de música, circos, mafuás, andores carregados, mastros e bandeiras, carrosséis, barracas, badalar de sinos, girândolas e fogos de artifício lançados para o alto, ampliando, na direção das torres, o espaço horizontal da praça.
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Osman Lins, Retábulo de Santa Joana Carolina
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(praça de exceção: da Sé) ..... Nos degraus só pombos e eu mais uma senhora que na ponta oposta apoia a cabeça grisalha na mão direita enquanto com a esquerda segura um saco e olha de lado, ora a mim ora a praça inteira, o que eu também faço entre a pausa das palavras, o que também faz a fachada da igreja: como sempre, dia a dia encarando os movimentos da praça e seu corredor de palmeiras. São 1, 2... quinze de cada lado (quinze à esquerda e dezesseis à direita, se se contar aquela baixinha mais jovem, parece que plantada há menos anos). O marco zero no centro, o centro no Centro de São Paulo. O marco é um monolito facetado em hexágono sobre um desenho de rosa-dos-ventos no solo; cada face tem tatuada um símbolo do lugar que alcança caso se siga na direção que oferta: Minas, Rio de Janeiro, Santos, Paraná, Mato Grosso, Goiás. Em cima, um minimapa da cidade, bem rústico, esboçado também em baixo-relevo. É de manhã, o sol mergulha no povo, no tabuleiro, nos prédios, nos blocos de grama sobrepostos à direita, no vidro dos vitrais escalando as duas torres e na rosácea do meio. Não se pode ver a luz que ela filtra para dentro. A catedral está fechada. Em reforma, aliás há muito tempo, em restauro como diz a placa, Desculpem o Transtorno Estamos em Obra, diz outra. A obra de São Paulo não acaba nunca. Não para como aquele carregador de dez botijões de água sobre o carrinho de ferro; não para como aquele carro de polícia que atravessa largando um pedaço rouco e isolado de sirene para abrir caminho; não para como aquela freira. Como aquele homem, aquela mulher, entregando os papéis de propaganda; como a moça com a bandeira dizendo nas dobras o nome e o número de uma vereadora; como o enxame de pombas ora em revoada ora alastradas no terreno, mas sempre um grupo sobre o último pedregulho lapidado daquela escultura-totem-de-concreto. A senhora foi embora, agora é um homem que nuns degraus acima de onde ela estava se senta e de costas à fachada gótica parece que reza, já que não se entra deixa qu'eu rezo assim mesmo, de frente pra praça de cara ao tumulto no sol que me racha ouvindo e sentindo o vento. Permanece, os dedos em enclavinho, um outro galga a escadaria se benzendo, chega ao topo e também não entra: o funcionário ou um outro impedido como ele lhe avisa do conserto. A catedral de boca fechada para o público.
.......... Os postes ainda antigos – cada um com três cúpulas, a do meio mais alta, os troncos de ferro. Ninguém mal me olhou escrevendo. Aqui nada é estranho. Movimento. O sol nas cabeças pontuando, o ponto-a-ponto delas se entrecruzando e desaguando das ruas ou nelas voltando. A criança com um lenço branco e descalça. O rapaz falando sozinho – a Bíblia aberta na palma. Lá do outro lado três mastros – sem bandeiras. A senhora gorda sentada ao pé da palmeira – vestindo a sua sombra, na pausa; conversa e gesticula um pouco ao rapaz à sua esquerda. O homem de cadeira de rodas – ao subir a calçada baixa onde a praça é mais lisa, solta as rodas e desliza aproveitando o leve declive. O homem de terno e gravata se benze, os office-boys com mil envelopes, um outro carregador agora com o carro vazio mas com um rangido metálico, os motoqueiros, o ônibus, buzina o táxi, o caminhão da Coca-Cola descarrega, a ambulância espera, o pastor fala mais alto e mais ininterrupto, os homens-tabuleta com seus COMPRO OURO, o sol não descansa, nem o azul, nem as pombas, nem o desenho das gramas e os bancos verdes, vazios, tem mais gente sentada na sombra da base das palmeiras. A fluxo, imagens, imagens, a fluxo. Ao lado do marco um homem monta sua câmera sobre um tripé sobre um estrado e filma. Drogaria, Livraria, ali no terceiro andar o letreiro de uma Clínica Médica. A voz aguda de uma mulher se evidencia não sei de onde, não sei o quê, só um quê do pastor se identifica: ...e Deus vai te tirar...! Uma outra cadeira de rodas sobe o aclive, um cachorro peludo segue tranquilo um pequeno garoto sem camisa. Já é meio-dia? O sol em cima. Bem em cima. O sol do topo.
.......... Lá no fundo a silhueta negra do José de Anchieta está de costas e atrás do verde das copas das árvores do fim do corredor de palmeiras ergue com a mão direita uma cruz escura como ela sobre a elevação do pedestal – pequena praça gradeada dentro da praça sem grades. É preciso que se rediga: a fluxo, imagens, imagens em fluxo. E no entanto é como se eu não existisse, talvez seja como se ninguém exista; a gente logo lembra daquele verso máriodeandrade: Ninguém chega a ser um nesta cidade. Se você quer se passar por um paulistano, levante a cabeça, ponha assim o passo firme, os olhos não bem olham, a constatação pelos outros basta só ao ponto de que não trombem. (um executivo atravessou a pequena pista de paralelepípedo que passa em frente da igreja e da pasta sob o braço pendia um fio de fones de ouvido curiosamente se arrastando como um rabo; antes que alguém interpelasse, um jovem de boné e com alguns dos mil envelopes chegou a ele e mostrou seu walkman desplugado, mal-humorado como se o homem ou a pasta dele houvesse raptado o fio de propósito na hora do choque quando se cruzaram; o executivo nem tinha visto e com a cara não entendendo cedeu o fio ao jovem que o resgatando voltou ao caminho oposto dando as costas ao executivo que seguiu lhe dando as costas idem) O marco, o Anchieta, os tijolos sacerdóticos. A truculenta cidade aqui se entrelaça, se intersecciona, se radia. O office-boy recuperou sua música, a praça jamais para de produzir a própria. “A praça, o templo.” – a praça e o templo, a praça é o templo? Deus está nela, dialoga, passa à distância, ao largo, não há Deus nem nada, só as coisas o barulho das coisas da gente as gentes passando, comercializando, buscando. Ao mesmo tempo está aí, aberta, ao mesmo tempo é mentira dizer que os olhos todos não se olham – aquele casal conversa, aqueles outros dois se encontraram, se cumprimentam num abraço. (Duas moças chegaram ao marco, o pesquisaram, atravessaram o largo e quiseram ir empurrar os portões de madeira depois de terem galgado os degraus – mas veio o funcionário: fechado. Elas saíram comentando, entre um desânimo e um desagrado, ouvia-se o sotaque hispano atrás dos óculos escuros, quem sabe dissessem com razão: ah esse Brasil é muito tosco em matéria de turismo.) Ao mesmo tempo aí está o espaço. Ter a psicometria avançada para saber o que era aqui há cem, quinhentos e dois mil anos; ter um correio no futuro, para alguém enviar o como é a daqui a mil, cem ou duzentos anos. Esse “espaço horizontal”, o espaço em todas as dimensões, irradiadas da rosa-dos-ventos imóvel.
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20 09 00
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