VP 22

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(A) ..... A indústria da natureza produz sempre à grande monta. O sol declinado faz da quadra uma chapa luminosa se vista do lado de lá, à entrada. A luz do mesmo sol – imaculada – brilha aquelas duas mulheres conversando sobre o verde da grama. Uma de pé com a luz às costas, às costas das pernas, no cabelo da nuca, a outra sentada com a luz na testa, na ponta curva dos ombros e joelhos, no peito dos pés; atrás havia uma flor artificial, vermelha, também iluminada, e por isso mais vermelha – a criança chegou (há quatro delas na órbita das duas), a levantou na mão e vi que não é flor, é um buquê de plástico desses de fita entrelaçada que se costuma pôr em outros buquês, de flores vivas, enfeitando. Não faz muito desde a Sé, entre lá e aqui fez frio, dia de chuva e tardes escuras, agora esse laranja derramado nas gramas, derramado é o verbo, laranja de líquido, delículo tão limpo, mais na lisura do aparo, a praça toda foi aparada, as folhas baixas e a poda rente ao solo, tapete de um golfe em campeonato, mas sem jogador, sem taco ou buraco, sem bola, só a calma da tarde solta, em queda, em ida embora para outros brilhos. Na esquina oposta à da quadra uns 8 ou 10 senhores se aquecendo no resto do laranja, ocupam os bancos ao redor da banca, os gestos dos braços, bonés na cabeça, conversam, discursam – talvez a respeito do voto, já que esse sábado é véspera de eleição a vereador e prefeito. A linha da luz do sol atinge o alto do prédio, uma sombra esfria a minha área com um vento, afugenta pouco a pouco, apaga, a face alaranjada da cara verde das gramas. Da grama e das folhas de cima, nos caules; só as daqueles, muito altos, recebem ainda o foco, só as daqueles no canto da banca e dos homens ainda viram amarelo, embora umas flores rosas se misturem (rosa mais claro mas mais clareado pelo laranja vivo), só aquele conjunto de troncos passa a faca nos raios e decalca as faixas de laranja vivo na onda em declive do vale. O amarelo persiste também no alto das árvores do outro lado, atrás da quadra – atrás delas, no outro lado da rua até há poucos dias, o ipê no estacionamento da empresa tinha o amarelo cheio em toda a sua copa florido, parecia vários; agora continua, mas todo em folha e galho, sem flor nem amarelo do fim do dia, na sombra das árvores da praça que recebem o laranjaluz dos raios –; persiste também na direção contrária à quadra e às árvores com topo luminoso: estourando na quina daquele prédio e no costado do outro, modernos em brilho de alumínio, com o reto alquebrado pelo recorte do estouro. O dia me arrancava para fora, me chamava para a praça; vim e escrevi só isso. Pobreza de espírito para relatar tanto? O sol em cúpula, cedendo, ridiculariza as minhas palavras, não lhas insufla energia, tem de sobra em si mesmo e elas param. As põe no lugar delas: caladas. A sombra homogeneíza mais a praça, o frio do vento se generaliza nos ossos. Uma floresta só de ipês floridos deve ser alguma coisa de deixar maluco.
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* Fui confirmar delículo no dicionário, não existe, existe dilúculo que é o “crepúsculo da manhã”; então fica lá delículo mesmo, é um dilúculo ao contrário, seu irmão do avesso.
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30 09 00
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