VP 23

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(C) ..... Imagina alguém que numa espiral desde a borda ande palmo a palmo da praça. E em cada passo cada pisada sente a grama, cada grão de terra, cada queda de graveto pedra folha seca e poluição sobre a área. E de cada sentir coisa a coisa não as sinta só no agora mas sim, em sucessiva descoberta, no passado delas e em como vieram até aqui e no que trazem em si pelo rastro do que se roçou ou passou por elas ou pelos ancestrais que as fizeram. Vai fechando a caminhada, rastreando toda a praça, a impregnando de pegadas, sente a cidade regredindo em volta, sente o nome científico e popular de cada planta, sente o areal de antes de ser construída, sente a mata num tempo em que não se nomeava ou as definições indígenas, os índios, as etnias específicas que aqui surgiram ou viveram ou estiveram, aqui mesmo, ou apenas passaram ao largo, como os rios, como as chuvaradas, como os pássaros ou as gerações de macacos ou centopeias ou anfíbios, e saber de onde vieram, antes deles mesmos, os índios, os rios, o grão de terra da aluvião de onde até há pouco pisavam. Acabo de pensar na frase do “grão de terra da aluvião” e um barulho do alto chama atenção: um helicóptero sobrevoa a avenida e perde altitude pouco a pouco, pousa no heliporto daquele prédio aqui perto. As centrífugas hélices amoldam o seu som com o dos motores centrífugos – dos carros, que passam, passam, passam tanto, a leste e oeste. Passam menos do que anteontem, hoje sexta-feira de feriado prolongado, há dois anos atrás de ontem eu estava num vestígio de parque em outro mesmo 12 de outubro, das crianças e Aparecida. (Ontem o Ibirapuera era outra comitiva de multidão no sol forte, quem não viajou resolveu até lá dar um pulo, era como passeatas em todas as direções, de gente andando de bicicletas de crianças de cachorros.) (Anteontem o barbeiro no cabeleireiro ou o cabeleireiro no barbeiro comentando o comentário do rádio a respeito do feriado e de Nossa Senhora: Coisa incrível! Enquanto o povo não deixar de ser ignorante isso não tem jeito. Onde já se viu? Acreditar no que não se vê, não se toca, não se cheira. Absurdo, não é verdade?) Atrás de mim uma moita de hortênsias está em flor. Uma folha seca de bananeira, no chão, isolada. Lá adiante, na base da maior árvore, apinharam uns trinta pneus sem miolo não sei a troco de quê; continuação das raízes, emborrachadas. Ouço um pio sequenciado; só depois vi que já ouvia há muito; olho por acaso para o lado e o passarinho quase mimético na reentrância de um côncavo demonstra que o som afinado está é a sair daqui ao abrir e fechar o bico. A cadela Laika agora está deitada a uns cinco metros – já havia dito da casa de cachorro e do sujeito que vira e mexe vigia as casas aqui da rua; pois é, a casa é da cadela e a cadela é dele e me disse se chamar Laika quando assim como quem não quisesse nada ela veio se aproximando, querendo carinho ao me farejar e fuçar abanando seu toco. É bem vira-lata e simpática, castanha e marrom-escura, de coleira vermelha e grandes olhos amêndoa, tranquila ficou deitada aqui a dois centímetros da minha coxa durante quase todo o tempo em que escrevo, vigiando. Imagina: qual o primeiro cachorro? de onde, desde quando? O sol vivo faz do verde das folhas pedaços de luz. Imagina se são brioches ou brevidades, e a gente a comê-los.
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13 10 00
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