VP 24

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(B) ..... Amanhece, é bem cedo, quase escuro ainda, a luz de um daqueles postes inapagáveis, com quem eu contava e não me deu calote, ajuda a ver a folha, ela vê a caneta, que desova a tinta, tudo certo. “Qual o número dessa manhã, na sequência milenar?” – Guimarães Rosa, do narrador de Páramo. Não há azul nem horizontes, nem sinal de gentes nenhum. A quilômetros deve haver, por trás destes muros que delimitam a praça, por trás destas nuvens que nos encopam a todos, desde o meio do cume até a linha quebradiça dos muros. Dos muros e telhados; no de cima da igreja, acima da placa do santo pintado [uma gota caiu no meu tênis, se chove agora vai tudo pelos ares; um vira-lata atravessa a praça, solitariamente elegante e silencioso] do santo pintado e me olhando, está a cruz branca que fica à frente da igreja que dá para a outra praça, branca pela luz que a enche por dentro, fria e inapagável como a dos postes. Minto: a desse que me auxilia não é impassível nem mesmo branca como a dos outros; é azul-acetinada, um azul que parece sair dela depois dela sair, branca, da lâmpada – a cúpula despencou ou foi espatifada, tem apenas um aro pendurado, argola vazia, deve ser por isso o azul. Azul que não tem no céu, como as nuvens insistem em que eu repita. Azul que deve estar não sei onde, mais que o dessa luz gradualmente a dissolver-se no avanço incolor do dia. [Apagaram a luz da cruz e acenderam uma na placa, ilumina de baixo o santo, bastante o seu ombro direito e duas lampadinhas tímidas na auréola.] Avanço friorento, nublado – mas um sabiá gordo pousou e veio saltitando, um galo continua cantando (o ouço desde o começo) e das plantas, como em toda manhã que se preze e em que há planta, sai esse frescor indelével de um dia anunciado, novo, aragem do ineditismo. (De Hiato, de Guimarães Rosa, mais uma vez de novo novamente: “Ordem de mistérios sem contorno em mistérios sem conteúdo. O que o azul nem é do céu: é de além dele. Tudo era possível e não acontecido.”) De fato, o azul está em algum canto. [As gotas aumentam, a tinta escorrega e começa a borrar na corrida da escrita, tenho de ir dando um jeito de ir seguindo.] Um vento, forte; ali, ao centro, na passagem entre os dois canteiros maiores, aparece uma luz branca de origem indefinível, dá um ar aconchegante à vista, olho pra cima pra ver se vem de um foco, é mesmo uma luz indefinível, rebate dos nublados, escapa do movimento das nuvens. [Apagaram inclusive a do santo. Os postes persistem, cegos como de praxe; os da rua já foram.] O cheiro do vento é inodoro como o de um hábitat aparentemente puro. O cheiro do anúncio, da primavera contida nele, das mortes nela inalienáveis. ("Há um cheiro estranho no ar; e do jeito que eu o sinto aqui, nestas profundezas, tanto pode ser o cheiro da morte como o da primavera. Espero que da primavera. Mas não se enganem quanto a isso: a morte está e existe no cheiro da primavera, como existe no meu cheiro e no de vocês. E a invisibilidade, se nada mais me ensinou, ao menos ensinou o meu nariz a classificar os cheiros de morte.” – Ralph Ellison, Homem Invisível) Por que da morte? Morte de quê? Devo ter posto para incluir esse trecho de livro de que gosto, que já me parecia incluível a aqui, desde quando li, há meses, há muito, afinal é primavera, afinal a morte se apresenta nessas folhas caídas, nas flores pisadas desses jacarandás, naquele copo de plástico na moita amassado, nesse frio que aumenta e me põe a tremer, vivo, me escorraçando e ordenando a caneta a findar. [Uma gota grossa caiu de cara na palavra incluir, se estourando e borrando-a.] As pessoas se resumiram a duas senhoras que atravessaram a praça certamente com receio desse aqui com papéis e uma temerosa caneta as olhando, ora uma de lá pra cá em direção à paróquia, ora a outra de cá pra lá ao contrário mas no mesmo corte de linha – diagonais as duas. Mais um cara com um cigarro expelindo fumaça e a passos calmos soltando o seu ardeile terrier que veio também calmo cheirando o cimento entre os rastilhos de mato e as folhas várias e as flores de jacarandá. Agora há pouco mais duas senhoras braço a braço pela linha lateral colada aos muros; agora já um senhor parando o carro, saiu e sumiu, não sei se entrou na igreja (a sua entrada dos fundos está atrás do arbusto). Aumenta frio, aumenta; mais tremo. Um senhor todo arrumado, de cinto camisa social sapato e relógio com um pastor alemão na coleira; os vivos-mortos dos seres humanos parecem cada vez mais sair de trás dos muros prédios e telhados, vêm à praça sentir um ar; eu, morto-vivo, de frio, saio. Ah: aquela garrafa sobre o banco; quase cheia de um líquido vermelho, imóvel como o que é duro, despacho incompleto e esquecido de ir abaixo à encruzilhada de um chão ou se resguardando elitistamente do frio? Os postes não se incomodam; despacham seu gasto público. O galo continuava até há pouco; parou; toma café; ou dormiu. O céu com o seu cinza escancarudo, claro, quase branco, não sei se é primavera que se preze, mas é. Olho a sola do meu pé dobrado, cheia do amasso das folhas e flores numa minilama que as amalgama. A morte e esse vento vivo (outra vez forte e agora fazendo muito barulho), trouxe inclusive uma pomba branca (não é figura de estilo: está bem branca e única), abre todas as asas e pousa no meio daquela área redonda, arena de nada, cenografa o vazio. (Uma senhora veio com seu poodle preto e solto; faz tai-chi-chuan.) “Arrancou-se a aurora.” – GR.
29 10 00
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