VP 25

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(D) ..... Esse banco em curva está um pouco inclinado, parece puxar quem senta para a sua piscina de terra, onde só há, como disse, terra, mais restos de mato, galhos partidos, algum lixo e um, dois... dez troncos das árvores que se espalham. O sol é forte dessa vez; se fortalece a cada momento. Mas o calor do ar não consegue impedir o concerto de picareta e martelos a reformar aquela casa atrás das heras no muro. Nem a conversa que se dissipa e mais ou menos chega quando o vento a leva, daquelas mães ou babás com três carrinhos de bebês com três meninos no chão brincando com brinquedos coloridos e um senhor no meio de cabelos brancos e calvo e agora levantou um – o de macacão azul-marinho e camisa vermelho-vivo – e sua voz masculina se dispersa em graves que não chegam nítidos, bolhas enfraquecidas de som. Um grande galho magro está na base daquele tronco do outro canteiro como uma sucuruju estorricada do sol. Aquele casal de, eu acho, rolinhas, se cisca e caminha no caminho cheio de iluminação. Há pouco, passando pela C, vi um passarinho preto no chão, saltitante, muito pequeno, muito delicado, silencioso, queria saber seu nome como ter a certeza de quem são esse casal – mas talvez os pássaros da cidade não valham, sejam mutações de tudo o que aqui se choca em trânsito, sem aviso, sem arranjo, inconsequências urbanas. O que não impede que aquele ramo saindo da bifurcação daquele tronco espinhoso cuja base tem o galho da serpente seja bonito como se não fosse daqui, beleza como as árvores acendendo as sombras na C quando o sol chegava começando a abrir as nuvens, e a moita de hortênsias lá, e a moita daquela flor ali, no canteiro quadrado com a árvore e da qual eu ainda não sei e nunca vou aprender o nome, como a beleza também das árvores daqui já com suas sombras acesas de vez mas nos canteiros recortados de batentes brancos em moldura (sem a planura simples lá da C) mas com por exemplo essas três bem à frente e a leste e a oeste, diferentes mas todas como de uma estepe africana, altas e espadaúdas – Zimbábue, Quênia, Burúndi? Chega de prosa. Mesmo uma das mães foi audível: vam'emborááá? A cruz, agora de frente, olha a praça com seus vitrais embaixo, ela branca mas na sombra com o sol às costas, eles escuros com as sombras que vêm de dentro. Nunca falei dessa fachada? São cerca de 15 vitrais em retângulo, só o sobre a porta deitado, de coloridos desbotados como o magenta que tinge a argamassa – talvez à noite com a luz elétrica as cores se acendam –, a cruz no mais alto está entre duas paralelas entre outras duas paralelas, em pés. A cruz parece fazer força como um atleta olímpico fazendo aquele exercício nas argolas que aliás lhe toma o nome dela: o da cruz. Os carrinhos com os meninos passam empurrados. Duas das mulheres param e conversam na sombra; em decorrência dois dos meninos se olham e esperam soltando uns gritos mútuos e finos. O senhor vem buscar o menino azul e vermelho vivo que se tinha desgarrado. A cobra galho continua impassível, esperando o tempo.
.......... O terreno de dentro não me draga: ainda há terra, folhas, troncos. O lixo e o mato. Desço do declínio do banco. Para fora.
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30 10 00
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