VP 26

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(F) ...... Aqui não é crepúsculo, mas sim um fim de tarde com o sol ainda em cima sob o qual a cidade sangra de paulistanos a mais um feriado. Constam as avenidas ao redor como uns trastes. As artério(escleroses) do convulso trânsito. Mas daqui não se vê tanto, não se ouve tanto, não se tanto entonta com o alquebrado ziguezague. A praça no seu modesto tamanho. Sem humanos. Pessoas passam, a atravessam para irem embora.
.......... No centro, quase, as flores das duas árvores ilham o chão de amarelo.
.......... Uma senhora elegante cruza de lado a lado, carrega bolsa e uma sacola, fala ao celular enquanto os passos seguros, largos, a levam para a saída com intransigência (intransigência?). Entre as palavras dessa frase um grupo de cinco, um homem acendendo um cigarro, mais uma rápida mulher, outros quatro, dois jovens um deles com uma espécie de berimbau colorido – todos potencialmente detalháveis (São Paulo não tem ritmo para a escrita, ele se faz picadinho, é pulverizado mal se separam os tijolos para a investida).
.......... Pôr-se a rapidez dentro de um ritmo:
.......... O entregador de comidas.
.......... O trêiler de hot dogs – em cima está escrito: LANCHES – parece ter o seu dono começando a fechá-lo, encerrando o dia.
.......... Pareço ter motivado outros: mais dois se sentaram. Um nos bancos verdes da esquerda, à sombra e com uma lata de refrigerante; o outro nos verdes da direita, ao sol na sua nuca e costas, fuma.
.......... Estou no pavilhão do teatro. Na beira da frente do palco, olho a plateia. Não tem espetáculo. A plateia são essas folhas caídas, algum entulho, aquele coco descascado e com certeza seco, aquele galho. Se houvesse (cena) as janelas de todo aquele prédio espelhado poderiam servir de olhares. Não olham. Quadriculam um azul em parte do céu refletido em parte delas mesmas.
.......... Um helicóptero passa baixo; acho que pousa num dos heliportos perto.
.......... Um caminhão cheio de tralha faz a curva no corredor de carros estacionados, bate uma brisa que solta da carroceria uma lufada de pequenos isopores, sopro de criança em detergente, as bolhas de sabão fora de contexto. O motoqueiro que vem atrás dá um aboio zombeteiro, a nuvem descreve um arco cheio e assenta tão logo.
.......... Ronca mais um helicóptero, não tão baixo.
.......... O do refrigerante esperava a namorada; ela chega.

.......... O outro esperava o cigarro acabar, foi embora.
.......... Aquela moita de folhas grossas não tem mais o sol que agora mesmo as tinha. (A concordância é assim mesmo.)
.......... Nunca vi um palco tão vazio a minhas costas.
.......... O vento começa um ensaio, mas não sei que peça.
.......... Os namorados não foram embora, a saída dos veículos em volta roça, o vendedor dos lanches não está encerrando coisa nenhuma: expediente aberto.
.......... Alguéns conversam atrás da moita atrás do palco, isso aliás desde o começo. Não entendo. Só chega o rumor das vozes.
.......... Um pássaro, mais aceleramentos. Já é crepúsculo? Um restolho de alaranjado ainda atinge de viés o terreno – o terreno de São Paulo, o terreno da praça entre os vãos dos prédios – e quase o cocuruto daquela moça que com muita aparente calma se senta no banco onde o fumante estava e como eu não faz nada: fica olhando. Espera?
.......... Um garoto com um filhote de poodle endoidecido aparece correndo com ele à coleira numa guia bem comprida e ele (o poodle) se lança no meu colo esbanjando felicidade pela língua e pelo corpo todo sacudindo junto com o rabo.
.......... Sim, esperava: uma outra chega e depois de dois sorrisos as duas vão embora.
.......... O menino conseguiu arrancar o poodle de mim – não enche o saco dele, Tóbi! –, os dois brincam sem parar pelo espaço, a praça é deles.
.......... Os namorados conversam, se beijam pouco, uma moça chega com um outro poodle (uma), o do menino com o menino já se foram, mais pessoas trançam, durante todo esse tempo não deixaram de trançar.
.......... Como não deixou de estar vazio o palco.

.......... Como não deixou de estar ali o galho.
.......... Como não deixou de existir o coco seco.
.......... (Releio tudo, de repente levanto os olhos: quase a penumbra do crepúsculo. Vazio. Só os namorados conversando, não se beijam.)
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1 11 00
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* À saída retomo os fones que antes já me ligavam à Rádio Cultura e é como se de antemão eu já quisesse esse piano, esse piano que não sei de quem é, que eu não sei quem toca, que combina e está a se encaixar com tudo.
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