VP 27

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(G) ..... O sol forte ao dia ardido de primavera que numa revolta é como se fizera um verão. (Mas um vento primaveril lhe acalma a ira.) Aqui no alto do sexto degrau da plateia o assento frige os fundilhos mas tudo bem: eu dois olhos na frigideira do assento privilegiado do balcão. Minha sombra me olhando ao lado enquanto, talvez, resfria o curto espaço que o recheio de sua linha atinge. O recheio da das árvores (copas) pespegadas ponto a ponto. Entre eles um filho um pai e uma bola. A linha entre os dois e em que a bola corre (ou em que tentam que corra, às vezes ela espirra e a linha entre eles se modifica e caminha) a linha entre eles se movimenta entre as manchas, costura as ilhas das copas que nem pensam nem pouco ligam, não necessitam ser costuradas. Força...!, o pai instiga o chute do filho. O filho fala, chuta, corre atrás da bola, chuta de volta. (quando a bola cai na grama ele não pega, a grama está um pouco alta e as solas descalças só querem saber do cimento, o pai de tênis e meia é quem vai e volta, recomeça) O mendigo com sua tralha e ao lado de uma coberta e embaixo da grande árvore à direita olha o pai-e-filho, me olha o olhando a ele e ao jogo, volta a olhar o jogo e eu os olho, formamos um triângulo do qual o vértice dos jogadores é cego, apenas atento à bola, o filho ao pai, o pai ao filho. Ali naquele canto – na junção entre a baixa plateia e a ponta do semicírculo do palco, na grama, queimada – parece sempre haver uma fogueira desativada, a cinza preta com restos de pedra e uma lata de cerveja encobrindo a quina da não-grama, do não-mais-um-espetáculo. (O pai e o filho subiram aqui, o pai não é pai, ao menino se desequilibrar disse tá vendo, o tio disse pra ter cuidado, quando o sobrinho quis ir lá embaixo no mato à direita entre a plateia e a outra ponta do palco advertiu tentando assustar mansamente: aí não, aí tem cobra... é, ela tá escondida aí no mato... – o menino não foi; com o tempo que levei a escrever isso já foram embora há muito.) O mendigo dorme; quer esquecer do dia. Todos os degraus da plateia já estão na sombra e eu nem tinha visto. O assento ainda esquenta. A minha sombra assassinada. Desfile de helicópteros. Desfile daquela senhora com o carrinho de bebê e o cachorro na guia. (entraram no prédio; o portão correu, os engoliu, abriufechou, automático) O lapidar dos carros em volta da elipse do ovo da praça não pára sempre, portanto também não pára o falar dele a cada vez que se vem. Crebro. Ainda mais na Marginal – que se vê veloz num segmento – e na Berrini, indo e voltando – muito mais que o pai à bola, aliás tio, naquele tempo já ido. O mendigo dorme. A cidade não deixa ouvir se ressona. As duas jovens de cabelos soltos passam no mesmo passo à calçada. Vira e mexe uma lufada de carniça. Possivelmente um bicho morto. Uma revoada de pombos pousa na base daquele tronco – à carniça? não se vê indício; frutos? a própria base é podre? Vira e mexe um cheiro de maconha. Identifico: daqui quase invisível, no sopé do declive atrás do canto leste do público, é daquele jovem que sentado num dos degraus do muro branco concentradamente fuma. E a neblina da ganja como na música do Chico, divaga às vezes com o vento e some sobre o palco. Deve ser a décima vez que aquela senhora obesa de camisa viva em vermelho passa; está dando voltas em volta da praça, andando acelerado. Os dentes-de-leão aqui atrás à esquerda no morro que sai do alto da plateia até o nível do chão. O créu das maritacas quem sabe em franca discussão entre as palmas da palmeira. O fumante já foi embora. O mendigo se senta de novo, olha: me olha, olha ao lado, olha a perder-se de vista, olha. Durante isso tudo muitos outros de todos os tipos passaram andando é claro: nas calçadas (de fora e de dentro, nas ruas, dos dois lados), nas áreas dos prédios, na grama no cimento, perto e à distância. Uma passagem que já iria no começo mas perdera a meada e só vai agora: uma sombra de repente me varreu rasante; olhei e era um urubu, lá no alto, já planava declinante, e a reta diagonal da cobertura do prédio tapou sua visão. (Ao chegar àqui a intenção era escrever pouco. Escrevi tudo isso. E me pergunto agora se chega a ser alguma coisa.) A tarde caindo. Caindo, caindo, a noite subindo, chega é palpável. O calor específico do que é feito o assento desprende constante, arrefece pouquíssimo. O mendigo repele um filhote de cachorro – tem um palmo se tanto e emergiu de que buraco? –, ele tenta escalar a colcha e chegar ao homem, repete quando tolhido, quase alcança mas vem tapa, rola abaixo.
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9 11 00
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