VP 28

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(E) ..... Fim de domingo, e a caminho do do ano – e agora sim: ao do século (e milênio). A tarde caída não prende as pessoas, elas escorrem, o ar com a brisa venta, nada fica. Sim as três meninas sobre o tronco inclinado de detrás da goiabeira (agora a menor sobe no da própria), a menor tem uma saia amarela e rosa e camiseta branca, a do meio camiseta branca sob vestido rosa, a maior um vestido vermelho – o degradê triplo corre, fala, as vozes finas com risos combinam com os pés descalços fazendo lap-slapt-lap no ladrilho. A mulher mais velha tem um livro que não consegue ler direito sentada no banco: lhes toma conta, os olhos levantam, coça a cabeça, a página não consegue prendê-la como a tarde fluente com o Tempo. Uma das brincadeiras: as três cada qual joga uma boneca para o alto e deixa que se estatele no piso, jogam de novo, os corpos de borracha cabeludamente sobem e descem descabelados e estalam na queda como cadáveres num precipício – gotas de uma chuva grossa, se repete a espaços, três a três conforme o controle das meninas. A menor se chama Luísa. É filha da mulher. Pelo menos é o que parece quando corre e some na moita aqui perto, a mulher grita volta, se aproxima e lhe fala de perto: não viu o que a mamãe disse, Luísa? Agora... Isso já foi há muito tempo. É exatamente como diz Cortázar naquele seu conto: “Agora mesmo (que palavra, agora, que mentira estúpida) [...]”. Há muito também um casal naquele banco; ia escrevê-los num presente, mas há muito já foram embora. Só sentavam, olhavam, a escultura, as crianças, toda a praça, trocavam umas palavras, ainda trocam, se levantam dão-se as mãos e de costas partem passo a passo na minha memória. Uma moça chega com um grande cachorro preto e peludo, o solta da guia, ele sai correndo, sua caça não vejo, ele desaparece atrás da moita, na mesma ausência em que a Luísa estava àquela hora – também não é agora, isso foi-se entre as últimas palavras do casal que já não se sentava, agora, agora, estão ali à direita, deram a volta por trás e o cachorro continua solto (é mesmo grande e peludo, tem um rabo enrolado e coleira de ferro) – o que já não é mais: sumiu de novo, a dona anda com a coleira balançando e olha as quatro apinhadas num dos bancos (um dos de baixo da goiabeira), a mãe recolheu as três filhas vermelha-rosa-branca parece que com medo de serem atacadas. Aquele prédio preto de esquina parece que da outra vez não havia. Aquele, espelhado e com heliporto, que naquela época há meses era um tapume, está espelhado como nunca, olha o esvaziar da tarde, aquelas flores roxas, o não-passar das pessoas, reflete em quebradas as torres retas do outro às minhas costas. Veio, da Marginal, o latido espaçoso de um cachorro estranho; estranho primeiro porque invisível, estranho depois porque de longe e ainda assim com volume, de onde só parece haver os carros incessantes, quem sabe um canil gigante e esquecido com o cachorro anônimo e solitário no meio do rio. Um sabiá rasa o ladrilho, a transversal vai pousando, o último saltito para à frente daquela moita de folhas compridas e em pontas na base do pau-ferro – estica o bico, lhe sente o cheiro. A praça retém cada vez menos, até a poeira, a luz, os sussurros, atravessam não se demorando. Vontade de dar um mijo (perdão: urinar, com urgência).
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19 11 00
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* No caminho de volta a placa de uma loja: AFIA-SE 24h. Poderia ser afiam-se e seria engraçado.
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* Um sucedido indecoroso, que não pus na hora mas vai agora retrospectivo: de repente atrás da moita uma barulhada, me levanto e viro; a dona do cachorrão para lá já ia gritando. O tal – peludo e preto e de rabo enrolado altivo no seu colar ferrenho – parece que sem mais nem menos ou por puro gosto agredira um cachorro nanico e de pelo curto e malhado que ia passando. Num primeiro momento parecia até que a vítima seriam as quatro, ou uma das três pequenas – aumentando o vermelho na coloração quente da escala –, já que todas já tinham desmontado do banco e sumido. Não: era o nanico – mas as quatro numa jogada mágica do destino não tinham sumido de todo: assistiam a tudo de camarote, estavam dentro do carro que no momento mesmo começava a sair em marcha lenta, e a mãe, com as três apinhadas em volta, viam a cena, de frente, com os olhos quase esbugalhados de desenho animado, enredo de novela mexicana que seria cômico se não fosse a estupidez do cachorro. Se não fosse a estupidez da dona: que mais burra que ele por deixá-lo solto o prende e lhe bate com a ponta da guia que agora é chicote, grita alto (talvez para exibir o quão se indigna, talvez para dizer ao cachorro o quanto é capaz de ser indignada), mas quem vê de fora logo vê que a raiva é por ela mesma, o que diz ao bicho é como te odeio por mostrar como eu sou burra. Bate nele, xinga, mas simbolicamente é em si que bate, a si se xinga – simbolicamente: porque quem sente no couro é o cachorrão forte (que aliás mal sente, segue com a língua vermelha e o porte contente e não se sente injusto quem julga que ri), simbolicamente porque quem sente é o outro, o baixote e malhado e de pernas curtas que, mancando, atravessa a rua e se afasta, de orelhas em pé mas silencioso. (Quem julga que chora se acha justo, embora não veja lágrima nem ouça o caim.)
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