VP 29

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(nem A nem G, entre as ruas Oswaldo Casimiro Müller, Surubim, uma estreita e sem nome e av. Berrini – ou H) ..... É uma mínima praça, se é que se pode chamar de. Tem uma banca de jornal e revistas com um toldo azul e outro curvo em semicírculo e transparente em cima, dois canteiros, um de cada lado do pequeno retângulo, ambos gramados e com algumas árvores finas (o lugar é mais ou menos novo), ali naquele canto se distinguem três brotos de palmeira que quem sabe daqui a alguns anos serão imensos. Entre um e outro, no piso de ladrilho listrado em três tons, de preto de branco e de marrom esmaecido, uma escultura. Tem uns seis metros de altura por uns dez de comprimento; se apoia em dois pontos, nas pontas, e descreve uma curva para cima, de ferro, e dentro da onda outras ondas e curvas saem das paralelas que pendem dela (sinuosas, mas simples, sutis e poucas), tudo em vermelho. O vermelho vivo se derrama, inteiriço, por dentro por fora e por cima, por baixo, (talvez seja do que é feito o ferro), pode-se ver um pouco do borro da tinta invadindo o chão na base menor. Não tem placa que indique, ao menos aparentemente não acho, mas tudo indica que é da artista Tomie Ohtake, pelo menos ela anda trabalhando com ferro e em esculturas grandes, e sem querer ser presumido tem a ver com ela, seu “estilo”, e mais do que essas provas: o edifício em frente, do outro lado de lá da rua pequena e anônima, ao que se sabe foi projetado pelo seu filho, Rui Ohtake. Fica de frente para a escultura, tem uns... 1, 2, 20 andares, e cortando-lhe o meio de cima a baixo uma haste reta e estreita, feita do mesmo vermelho e quadriculada em lajotas, se destaca. Os andares não são lisos normalmente – lisos sim, nas janelas de verde espelhado, entre faixas de um marrom ou cinza e outras menores de mármore, ambas as faixas (horizontais de janela e lajotas) riscadas verticalmente por fendas quase invisíveis, marcas de cicatrizes, paralelas à haste central e vermelha; lisos não no modo de se unirem à coluna, ou “passarem por ela” ou “serem por ela cortados” como se queira: os andares, alguns, ao se aproximarem do meio se projetam na coluna, uns mais, uns menos, dão um movimento de onda, e dependendo do ângulo a ondulação muda, ondular somado pelas quinas que não são em ponta, são rombudas, raspadas numa curvatura que ajuda o “redondo” (não vou explicar nunca, no mais não é pra ser explicado, é pra se ver) – o que dá na vista edifício e escultura serem um “conjunto”, ainda mais pelas muretas cinza ao redor dele também em curvas, é ondulação sólida a tudo que é lado. O vermelho em raio corta reto o prédio ao meio e se despeja em ferro no centro da praça; ou do ferro em onda sobe um repuxo e o vermelho da praça talha reto até o terraço. O arquiteto ergue funcionalidades ou edifica a razão de um valor estético? (Anteontem passou na TV uma matéria sobre a Casa da Flor: é uma casa num município do Rio de Janeiro construída por um homem que já morreu, era pobre e analfabeto, como tantos sem direito a instrução como as Constituições dizem todos ter. Com restos de lixo, cacos, utensílios ao acaso, decorou as paredes e chãos e tetos, e muros e cornijas e recantos, e nichos e degraus e colunas, muitas pétalas, cores, objetos por exemplo como uma garrafa de plástico que aplicados na construção ganham um outro sentido. É um “exemplo único de arquitetura espontânea”, como disse a diretora da associação que tenta cuidar do patrimônio. “Tem um enorme valor simbólico.” Um pequeno grande castelo erguido. Um sonho concreto. Uma das paredes principais apresenta uma rachadura grande, a madeira das vigas centrais está por um triz ruindo; “se essa parede cai vai tudo abaixo” também diz a mulher com voz de defesa firme mas com uma tristeza nos olhos. A câmera passeia pelo mosaico de enfeites... seria preferível não ir tão rápido, o vento deslocado pode ruir tudo. Eu não lembro o nome do homem nem mesmo o do município, apagaram-se na memória como nem chegou a ser acesa a ajuda que ele não teve.) Que diferença tem entre a casa e o prédio? Lá térrea aqui empilhado, aqui particular e moderno lá modernamente próprio, lá subnutrido aqui bem cevado e sólido, embora tudo rua com qualquer terremoto mais zangado. Antes de chegar uma chuva de verão lavara o conjunto e os vermelhos, as ruas em volta e o que se avista; fez sol e agora cai de novo, pode-se se abrigar num dos bancos sob o toldo ao lado da banca por causa do ponto dos taxistas. A onda ainda dura, rubra, agora úmida; gotas pingam. Um dos motoristas com seu táxi bateu num carro parado ao se desviar de um carroceiro; o dono foi avisado, saiu da banca onde estava, fez um joia ao taxista, parece que se conhecem, o estrago vai ser resolvido na volta, ao serem sei lá onde deixados os passageiros. Um avião passa baixo mas muito desnítido pela cortina do mau tempo. O ronco da avenida se ameniza, se enrosca no emaranhado da chuva; a chuva engrossa. Será que a Casa da Flor agora mesmo ainda “flutua”, no seu delicadamento enfeitado, na sua roupa de cacos, de pé? Pegando ali à esquerda, indo pela Marginal e Dutra, quantos passos ou metros, quilômetros ou tempo se leva, se levaria até lá?
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21 11 00
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