VP 3

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(B) ..... Entrando deste lado a praça é diferente. Veem-se logo outros redondos que de lá não vi. Assim como se vê o prédio por inteiro, agora entregue ao sol, devassado, exposto a interrogatório. A mim não diz nada, silêncio, como nos cinco ou seis jovens que se reúnem sobre um banco, como no casal de namorados ele no colo dela ela lhe tirando espinhas ou acariciando, como – ainda – a luz acesa dos postes em conflito com o dia, como outro redondo mais espaçoso e de arbustos e flores que há dentro do pseudo-anfiteatro e de que antes também não me dera conta – cenário. Silêncio não como o da marreta que o operário bate no portão do outro lado da rua (estou num dos pontos do halo do anfiteatro). Portão do terreno de uma igreja ou paróquia – que para cá dá os fundos – de um santo que a nomeia e que já não lembro qual é, só se enxerga uma gravura dele com auréola e uma cruz à mão esquerda e uma barba e uma manta com letras embaixo dizendo O GRANDE MISSIONÁRIO DA FÉ – ...ah, acho que é São João de Brito ou algo assim, de onde saiu aquele vestígio enluarado de fenestra (21), uma noite, há muitos dias. Silêncio não como o cão que late talvez daquela casa de tijolos; silêncio não como a mãe com a filha que apareceram não sei de onde e a mais velha diz à outra: “vamo vê se tem semente, Ni?”, mas tudo indica que era uma isca para que a Ni saísse de perto da rua; em todo caso a Ni volta, mãe e filha sentam-se noutro ponto do halo, conversam. O prédio ainda se recusa e o sol ainda o tortura; a reunião dos jovens está a toda; o namorado já deve estar limpo mas a namorada continua; as obras da igreja ainda não acabaram. O cenário do anfiteatro continua sem uso. A Ni e a mãe se distanciam pela outra ponta, depois de conseguirem – é o que a fala também delata – uma flor de lembrança à avó. Grandes nuvens, grande é o sol, grandes são as linhas que aquelas duas borboletas amarelas, muito pequenas, deixam no ar.
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(C) ..... Esta praça é pequena, mais ou menos como a outra – a última passada. Aqui não se senta, ou se quiser só na grama, aqui não tem banco nem toco de assento, aqui só estamos eu e as árvores, um chão e um caminho que a atravessa. É tudo plano, somos um tabuleiro com peças de um xadrez de que não sei as regras, descobrimos conforme andamos, conforme se rebatam os caminhos por entre os troncos. O barulho é enorme por margear a avenida, mas as árvores não fogem. No máximo olham de soslaio, viram a cara um pouco, levantam as sobrancelhas num riso resignado como quem diz “perdoai-lhes senhor, não sabem o que fazem”. Sol – mas a noroeste (a avenida é o norte) uma capa de vários chumbos vem subindo sua têmpera, chega trazendo cheiro de ferro. Um ônibus vermelho e branco para na avenida (há um toldo na avenida e lá sim tem três assentos) e cospe uma senhora obesa que ajeita a bolsa sobre o ombro e sai entre passos pela calçada – margeando a praça como a avenida margeia, na fímbria entre uma e outra. Os passageiros a olham, olham a praça (uns veem um de pé, de papel e caneta), olham em várias direções e principalmente adiante, dentro do próprio ônibus – e seguem sentados, imóveis no movimento do veículo –; a mulher depois dos passos para e encara a avenida: quer atravessá-la – quer atravessá-la?! – e a atravessa; entre um vão de carros projeta seu corpo, a bolsa vai junto, some atrás da visão de uma árvore mas tudo segue seguro, pelo menos nenhum grito de breque ou estrondo de baque indica o atropelamento. Chega de falar avenida; é que sua presença é constante, constante, constante como os outros sons que ela tolhe, constante como o dos trovões que não se ouvem mas já se intuem. Presente como este espaço inabitado que a praça traça: o caminho de uma tonelada de pedrinhas fundida a asfalto, composto em duas quase-retas cruzadas que unem as quatro pontas do retângulo. Talvez alguém olhando do alto (como aquela pista de pouso na nuvem ou como aquele pássaro ou como os aviões que perto daqui numa passagem paralela constantemente passam – mas daí talvez seja demais, ou seja, talvez seja parte de detalhes irrisórios demais a eles) – bem: talvez alguém olhando do alto creia que identifique um X esticado de mapa de um tesouro. Dois garotos de bicicleta passam para negar a inabitação do caminho – e fazem uma coisa que eu mesmo fazia aqui na idade deles e de que nem lembrava: vêm rápido por um dos braços do X, dão um cavalo-de-pau no cruzamento, e encetam pelo outro segmento subindo o outro lado do “V”. Sobe pó do chão já marcado; retornam e repetem o irrepetível. Uma árvore com grandes flores rosa-explosivas se avista, parece de mentira – agora estou perto, a toco, a cheiro, a olho; a textura é de uma pele-como-as-nossas, o rosa é de um vivo vivo, e no chão há muitas mortas, enroladas, “feridas de ciclo”. Uma outra grande, a que tem mais copa, é a maior do padrão nativo (nativo desses metros quadrados produzidos, diga-se) e uma outra, não árvore: planta, tem as grandes folhas pontiagudas e em curva, todas curvas para o mesmo lado, parece a garra de uma relíquia dinossáurea sobrando na superfície. Mais dois ônibus passaram pelo ponto; ambos rubro-brancos e na lataria a palavra escrita que não vira no primeiro: PIRAJUÇARA. O sol – pintando as gramas, aquecendo o asfalto, aquecendo o senhor de mala e mão na cintura que agora espera no ponto –, o sol ainda; mas cada vez mais mais sombras passam.
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(de memória) ..... Na casa numa das ruas, a da aresta maior só que a do sul, uma placa chamando CONSERVATÓRIO DE MÚSICA, o que se fosse ali parecia piada, e não era, tinha uma seta vermelha, comprida, indicando para se dirigir à rua próxima, Maçambará. Ou era ali até certo tempo e, falido, teve de aceitar a mudança. Falência a troco de quem, é claro: da avenida.
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18 01 00
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