VP 30

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(nem B nem F, entre as ruas Conceição de Monte Alegre, Araçaíba e Castilho – ou I) ..... Chão dourado. O Sol despeja seus fótons nos seus braços de 15.000.000 de quilômetros que até aqui chegam e finalmente tocam com as pontas dos dedos. Depois de dias chuvosos, grandes céus cinza e às vezes garoa às vezes gotas caudalosas, até frio. É uma praça aberta, plana, devassada, dizer chão dourado é quase uma licença poética porque aqui no meio o que tem é um quadrilátero de cimento com 5 saídas, pistas que dão às calçadas para todos os lados. Uma moça passa de braço dado a uma senhora (quando escrevo senhora as suas solas de salto baixo roçam e ressoam a uns dois metros quando cruzam à minha frente de onde estou sentado), a mais velha parece se recuperar de uma doença ou grande abalo, as duas andam de cá pra lá em todas as direções e conversam. Mas é dourado onde não é cimento e onde as gramas recortadas se fazem laranja luminoso pela pancada dos fótons. Não muitas árvores – muitas baixas (a praça é mais ou menos nova), se o lugar existir, ainda resistir no futuro, leva a crer que será muito diferente. Nas bordas algumas altas, esse banco (um dos quatro com quatro reentrâncias em curva de assento) recebe a sombra daquele eucalipto, é quase o único que assombra o quadrilátero. (As duas se sentaram naquele banco fronteiriço, reflexo desse; a sombra também lhes encosta.) Além das saídas há essa saliência em semicírculo, nela um monumento – todo pichado, uma placa da prefeitura (REURBANIZAÇÃO PRAÇA ARLINDO ROSSI), é mais um desses monolitos de 2001 uma Odisseia no Espaço, só que claro. Dos outros lados só casas; residências, uma funilaria, uma de venda de água, uma ALUGA-SE. Mas do jeito como essa redondeza muda, não só as árvores se resistirem crescem: aqueles prédios da Berrini, que muitos já são visíveis, cada vez mais se movem, e a Águas Espraiadas (avenida ali do lado) promete. Do lado de lá, na haste onde haveria uma quarta rua mas não há, faz limite uma favela; resquício das muitas que aqui havia, que foram retiradas mas em nada quer dizer que resolvidas ou ajudadas, em algum lugar transplantadas ou revingaram pela própria força, como árvores; (ou como árvores espalhadas em tocos, ou em cinzas); da Marginal vê-se o prédio grande com o letreiro poderoso e emblemático em itálico na parede de granito quase no topo: Microsoft. Um helicóptero muito preto passa sobre as marginais no sentido Centro-Sul depois logo outro também preto no sentido Sul-Centro (vários mais passaram antes, não demora e vêm outros), não sei como aguentam nesse calor que sobe, se o vento que rasgam não os invade lá dentro deve estar um bafo. Céu desses de azul-ao-todo, aliás são vários, os azuis se disfarçam e traficam quase imperceptivelmente de horizonte a horizonte. Há duas quadras com gols de futebol de salão ali na ponta com grades baixas as cercando; dois garotos jogavam um pouco, a bola subia, descia, não jogam mais. Muitos carroceiros margeiam a praça – ali à beira da favela há um centro de troca ou depósito –, passam e puxam equilibrando entulho, objetos, ferros e pedaços de cano, muito papel. Um vidro de carro ao lado da funilaria refletia como uma soldagem um dos braços do Sol; a Terra se moveu, se desembaraçaram, pelo menos nessa visão. Maritacas grasnam dos cumes de copa dispersos – maritacas, periquitos, maracanãs? Em duas das outras calçadas dois flamboyants estão absolutamente florados; lá neles o sol é por dentro, o seu fogo sai de si, se inflama, autônomo. Vira-latas, 1, 2, 3, 5... fuçam pelas gramas, catam restos, tomam sol e esperam, deitados lado a lado ou sozinhos, um quase branco atravessou aqui onde a senhora e a mulher passaram, outro malhado veio de volta. Dez postes, cada um três lâmpadas. Um carro de polícia; surge aos gritos, passa por dois segmentos (dobra a esquina atrás do eucalipto) some e se cala. Os aviões não param nunca, de tempos em tempos sobem de Congonhas, um deles se foi há pouco, lento como um carrinho de montanha-russa, muito íngreme. Uma moça toda de azul e bolsa preta atravessa e se senta no banco onde a senhora com a outra não mais se senta, deu uma parada para descansar fumando um cigarro. Um sujeito com um poodle branco solto e elétrico. Um outro atravessando apressado, arrumado de calça social camisa comprida e cinto. Dois operários de capacete e cinturão de ferramentas, se preparam para escalar aquela escada (não tão alta) apoiada no poste. Vento. Uma moça com um cachorro preto e vira-lata, na coleira e guia, os flamboyants, mais um carroceiro, um alarme à distância, um avião passou perto e mais uma longínqua sirene. Aquele cachorro branco e preto, cheio de sarnas, não consegue arrancar o que tenta seja lá o que seja do pequeno vão de barro no meio do gramado. Me calo idem.
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28 11 00
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