VP 32

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(G) ..... Choveu muito, agora assola o sol. Há uma hora ainda aguava e o cimento desse assento, já seco, com certeza estava úmido (como ainda está na poça aqui do lado do meu pé esquerdo, nas poças pequenas da meia-lua do palco, na grande poça com uns chumaços de mato, atrás, nos quadrados de cimento não reto, não reto já que a poça entre os chumaços faz em parte esse lago). Desde ontem chove e passa passa e chove, ao meio-dia as nuvens encobriam tudo e corriam todas juntas, num mesmo ritmo, a velha manada, bombardeando uns ribombos nos caminhos tremendo. Agora a minha nuca arde, e as coxas, e os joelhos, devia era ter posto protetor solar. Agora entre mim e aquele prédio branco e laranja-de-tijolo há uma linha formada pela palmeira e aquela outra árvore mais baixa de flores brancas ou folhas mais claras que as verdes bem escuras; em ponta a sombra do prédio atingiu a árvore (não a palmeira), em ponta a sombra no chão dá um efeito inatural e interessante: a copa, redonda, carnuda, se revela enquanto sombra reta e aguda com a quina dos seus 90º apontando àqui, à plateia, à palmeira; “inatural e bizarro”, haverá quem diga, ou haveria se visse. O vento refresca. As palmas das mais de vinte palmeiras guizam ou são chocalhos circulares no redemoinho sonoro que me envolve. Estou mais uma vez no último degrau da arquibancada mas acho que pela primeira vez bem no meio, atrás à direita uma das rampas, atrás à esquerda a outra, à frente visão privilegiada do espetáculo, que espetáculo, o rapaz passa com o bull terrier preto, na meia-lua de grama a mesma sobra de fogueira do canto do palco, ou a mesma mas outra camada, aqui o fogo é sempre renovado, pelo menos disso o vazio do palco não se queixa – fui lá, tem uns restolhos: vidros, cacos, um galho, um ferro enferrujado, papel, entre cinzas; uma borboleta muito pequena e amarela voa sobre, vem outra daí a pouco, revoam, vão embora. As folhas das moitas e por exemplo daquele arbusto também fazem barulho. Os carros (dizer um milhão de vezes os carros para não precisar mais dizer isso). Os pombos. O táxi, o carro de polícia, o entregador de pizza na moto. Aquela senhora com a moça já rodaram umas dez vezes a praça (e logo quando eu olho estão na calçada externa e subiram à entrada daquele prédio fino). Um sujeito parou a bicicleta na encosta de grama, subiu até cá no alto mas está sentado lá na ponta, de costas para o palco e olha, olha, olha em silêncio para o que há de praça com árvores até a avenida. Três crianças – dois meninos e uma menina – também subiram, com uma bola, a menina disse cheguei primeiro a um dos outros, depois grita não chuta, não deu tempo: o garoto dá uma bicuda e a bola de couro com seus gomos brancos azuis amarelos estronda no fim da parábola duas vezes no palco. Uma mulher os acompanha, muito depois chega em cima; diz: Bianca, num grita, deixa de ser escandalosa, não adianta nada. Não tenho do que reclamar, afinal sem eles o que seria dessas palavras, mas vai ficando difícil se concentrar com tanto pulo e berro, deixaram no chinelo o redemoinho do chocalho floral. Cuidado pra não acertar ali o moço, mas é sobe-e-desce à beça de bola e pernas na rampa, talvez mais esse aviso também não adiante nada. Um pássaro preto; outro cachorro, agora com uma mulher sendo puxada; três senhoras são as que tomam dessa vez a rota ao redor da praça em voltas e voltas, andando lento, de braços dados. Cê bateu forte, Bianca. Ah, grita a Bianca. A mulher ri. Choveu muito e agora é o sol: ele no prédio onde a senhora e a moça moram, ele nos outros e no de laranja-tijolo que daqui é só sombra, ele na fervura daquela poça à minha esquerda, quase extinta, (a Bianca para para lançar a bola e a sombra das duas está bem sobre essas letras), ele numa nuvem ou outra que o esgarça às vezes (cada vez tem menos, às vezes uma grande atravessa, o azul toma conta), ele com calor, sobre as parabólicas dos terraços, sobre as birutas, sobre as copas, por exemplo a tal maior sob a qual aquele morador mora, está deitado com um guarda-chuva na sombra, ele é tenda à cabeça enquanto um papelão com outros trapos faz as vezes de coberta. Ele (o sol) que não prende os carros na avenida, ele (o sol) que ainda não aplaca a grande poça, ele o sol que desce e já fez a sombra em quina chegar aqui e encobrir a plateia, ele que ainda aquece o sujeito que ainda olha na ponta, ele que ilumina, ele. (Os dois garotos tentam consertar algum negócio – acho que um frisbe partido em dois que acharam – e a Bianca se aquieta, olha de pé e com as mãos na cintura aqui do alto outros cães com seus donos na coleira.) (Acho que sempre quando chego na G penso em escrever pouco, e não consigo.)
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10 12 00
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