VP 33

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(A) ..... 19, 19 e pouco, na praça ainda não tem luz de artifício, o início noturno é claro apesar das nuvens ou por isso mesmo – o crepúsculo as pega de baixo e elas o rebatem. Ocupam o meu muro. Na ponta da murada onde geralmente fico estão dois garotos e duas garotas, de uma delas é um filhote de pastor alemão capa-preta que não liga ao ramo de árvore que ela balança quase no seu focinho para chamar a atenção; ele fareja o barro, o chão gasto ao pé da mureta. Estou na arquibancada da quadra, no degrau do alto de uma das escadas do meio, daqui além do pastor com os quatro se veem mais três sentados embaixo da árvore com tronco enfezado perto da torre de energia, mais quatro aqui atrás na ponta da arquibancada dois num degrau dois no outro todos fumando e conversando, cinco meninos um mais alto jogando futebol na quadra com uma bola colorida tendo os dois bancos de cimento como um gol de improviso. O ar é fresco (um pouco menos abafado) choveu antes e o vapor ocupa mas também se dissipa bem rápido. Olho e é mágico: os três do tronco enfezado desapareceram, ah, andam mais adiante. O pastor late. Os quatro daqui fumam, conversam. A bola colorida não para (mas agora mesmo de repente os cinco correram, subiram e desceram a lateral de gramado, pararam no ponto de ônibus – em seguida surgiram pela rampa oito adolescentes com seus skates e byces e tomaram conta da lisura da quadra (será que é por isso que os cinco correram? os cinco eram pretos, meio maltratados, de roupas pobres de tecido gasto; esses oito, brancos, de “roupa de grife”, com brincos bonés e penteados; será que tacitamente um atrito racial e econômico entrou em choque? – não, nesse caso não: pelo tempo do ocorrido, depois eu vi, os cinco correram mesmo foi pela chegada do ônibus; o pegaram, os oito pegaram a quadra; acho mesmo que uns e outros nem se viram)). Enquanto enchia esses parênteses vi meu irmão passando: passou andando na calçada da Porto Martins e entrou na da Kansas; eu o via através dos vultos dos skatistas rolando mais ou menos em fila na faixa do degrau à minha frente; ele chegou a olhar para cá mas deve ter visto mais o rolar dos skates, e eu não chamei, preferi olhar a ele e vê-lo passar e escrever isso. Agora até os oito se foram, a quadra continua lisa; agora até outros (três) de bicicleta que apareceram depois dos oito irem também se foram; a quadra continua lisa. Não tem mais pastor nem os quatro. Os quatro daqui continuam conversando, fumam. (olho e a verdade seja dita: não são mais quatro, são cinco, e não fumam) Um senhor de cabelos brancos passa de camiseta lá na calçada na marcha ritmada de sua corrida. O grito do breque do ônibus. O trânsito não é tanto e é mais o pio de uns passarinhos incógnitos dentro dos escuros das cumeeiras. Essa folha em que eu escrevo é azul, e fica mais azul ainda (escuro) quando a noite cai dentro do dia. A luz de artifício ainda não chega. Mas aí os postes: 1, 2, 3, 4... todos duplos, quietos. Um dos cinco disse: vamo nessa, mano? – mas continuam a todo papo. A lisura do piso pichado da quadra. A quadra sem gols, sem jogo. As copas tremem um pouco, o ar é gostoso, aquela casa da Rio da Prata tem uma cascata de luzes brancas como enfeite natalino. Quatro dos cinco vão embora: o que fica fala alto fechando um assunto: só se for com o dedo, né? os peru num tá comigo! Sei lá o que ele quer dizer com isso. É a terceira formiga que eu peteleco da minha perna. É um céu bonito e finalmente a luz das cúpulas chega. É a primeira estrela, é aquele casal cada um com um cachorro na coleira, é aquela folha seca que, sozinha, faz um barulho cacarento quando o vento no chão a roda.
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12 12 00
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