VP 35

.
.
.
(B) ..... Ali o garoto no equilíbrio da bicicleta, o galho partido pousado como nenhum pássaro, a erva das gramas se intrometendo nas frestas, do piso de ladrilho, entre o escuro, entre o claro, entre a tinta do barro e a poeira, a moldura dos canteiros redondos aparentemente limpos, um velho com um pastor alemão na coleira conversa com um outro sentado de boné branco, se afasta e o de boné põe os óculos tira um papel do bolso e uma caneta, passa a escrever, passa uma luz nova, as nuvens são muitas mas também os buracos, também o movimento, o ar está vivo, o sol vem de cima dos lados de dentros, ilumina como um verão querendo ter início – a Natureza está toda aqui reunida, se é que não é ser platônico falar em Natureza na grandeza da cidade grande. Estou naquele antigo banco em que o gigante pôs o dedo (continua partido, nem o gigante nem os habitantes assustados voltaram para consertá-lo). O velho continua escrevendo – agora acabou me olhando, me vê o vendo, talvez tenha pensado ele acabou me olhando agora depois de ter interrompido o seu escrito. Volta: o seu boné (boné-chapéu) como um círculo branco quando com a cabeça abaixada, mais branco ainda e mais círculo enquanto o sol lhe serve de recurso luminoso. (Levanto a minha e sumiu; a mureta só com a pichação sobre a qual estava sentado, lá no fundo o painel do São João com o santo olhando a vaga onde não mais está, será que fui eu o incômodo?, será que os olhos do santo agora mudam de direção ou mesmo já me focavam quando o velho lhe dava as costas?) Acima deste jacarandá uma nuvem grande (cinza e branca cinza no bojo branca nas bordas) está irradiada de raios como naqueles filmes bíblicos, mas me perdoe o sagrado cinema, aqui é muito mais bonito. Aqui o cacho naquele canteiro, de pé como um bisonte, casaco do Homem das Neves, escultura da antiguidade. Aqui o do pastor alemão com o pastor alemão também foi embora mas aquele rapaz chega de bicicleta desce dela e se deita num banco próximo de onde o escritor estava, balança as pernas, olha pra cima, toma não o sol mas a sombra com a mão direita na nuca. Aqui mais um coco; está ali do lado do banco, dentro da divisão jardim/ladrilho, parece uma planta rasteira e redonda, como uma melancia, mas não só verde mas também cor de terra (a terra que secada o lambuza), com um furo. Estar vivo, aqui, agora, já, assim, não seria para falar tanto. Daquele tronco, aquele galho florido, três tons de rosa... é um manacá? Falando em escultura vetusta, à esquerda estas árvores fibrosas, grossas, são como colunas de um templo pré-cabralino, pré-indígena; a sua imponência, o seu mistério receptivo, a sua religiosidade à solta, anônima, e de nome não precisa; caminha à deriva no vento, na terra laranja, nas cascas, nas folhas, de cara limpa.
.
21 12 00
.
* Mais tarde: choveu; e sol; quase arco-íris.
.
.
.

Nenhum comentário: