VP 36

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(D) ..... O verão vem e chega a bandeiras despregadas. Véspera de Natal – não: antevéspera –, há 2000 anos Jesus não estava para nascer, parece que essa data de festa é de uma festa pagã até hoje mantida nuns países nórdicos, a Igreja fez um ajuste para não perder a oportunidade, a popularidade, há quem diga que Jesus nasceu antes, há quem jure de pé junto o aniversário dele foi mesmo hoje, há quem não dê a mínima a ele ou se chateie de tanta chateação que propagaram às suas custas, um pesinho de pecado aqui um senso de culpa ali adiante, o punhado de uma lista de leis desde cedo ao pé do ouvido, uma guerrinha santa uma sacra contenda uma penca de assassinatos, pregões inesquecíveis, irrefutáveis, não aceito réplica o Natal não existe, o Natal sempre existe não discuta comigo, se se fosse saber de tudo o que é engodo seria um mar de queixos caídos na área terrena do mundo. Talvez fosse o caso de fazer uma enquete: para você o que é o sentimento natalino? Chegar àquele mendigo da G e perguntar; chegar às periferias e aos bairros ricos, no centro e perguntar, no interior e no litoral; chegar às casas de asilo, às moscas dos sanatórios, às partes de baixo dos viadutos; chegar aos homens públicos, às mulheres de qualquer estilo, aos homens escondidos e às crianças de todos os níveis mentais e socioeconômicos; chegar àquele senhor com seus dois cachorros; chegar à floricultura passar pela porta e perguntar; chegar àquela mulher com seus três cachorros avermelhados de coleiras e guias; chegar e perguntar aos bichos; chegar àqueles três meninos tomando conta dos carros (há comemoração na paróquia); chegar às árvores e perguntar, chegar à poluição e às aves e perguntar, chegar à minha família e perguntar, chegar a mim mesmo e ter que responder. À porta aberta duas filas de homens e mulheres vestidos de batas mais ocres que as paredes e de losangos marrom-escuros descendo dos pescoços esperavam a deixa para entrar, de dentro veio uma música, as filas se foram passo a passo, a paróquia fechou sua porta à passagem do último; parece cheio: vaza o coral, entre um canto e outro palmas; quem sabe lá dentro de algum jeito eles respondam. Duas senhoras, talvez desistindo, saíram pela porta deixaram o canto atravessaram a praça rente ao muro a menos idosa com um receio nos olhos e outro maior no corpo enquanto andava disse à outra: não gosto de cachorro, aqueles dois soltos ali, eu hein, não confio... – conseguiu controlar-se e ambas chegaram ao outro lado, sumiram. Chegar a cada uma e também fazer a enquete? Pergunto a estes dois postes, ao bosque, àquela casa de janelas azuis escuras e parece que toda fechada, de longe àquela moça com a criança, é um menino e ele passeia, ela olha, num minuto ele vem correndo e sobe no banco, a abraça, ela o abraça, balançam, pergunto à vibração do canto que não para e vem de longe, de repente se espalha e palmas, agora silêncio, pergunto a este “S” espichado aqui ao lado no cimento da moldura do canteiro em que estou sentado pergunto aos restos de lixo entre os troncos pergunto à praça mal cuidada mas às plantas e verdes vivos – a resposta é sempre a mesma: é verão, chega ao fim uma era de calendário a que estais acostumado a seguir, eu sou apenas um canto (emocionado nos que o soam e talvez emocionante), eu sou apenas um bosque, sou apenas dois postes uma árvore uma casa clara e janelas escuras, sou apenas a paróquia com as batas de losango, sou apenas este fim de tarde, eu sou apenas a moça e o menino e no balanço os seus abraços, eu sou apenas três meninos vigiando os automóveis. Pergunto a mim mesmo e: escrevo para não dar resposta? Respondo o verão chega com suas vastas bandeiras, as vozes num “todo dia é dia de papai noel” chegaram ao ápice, e o ápice das palmas, e a maré das pessoas se verteu da paróquia através da rua, o céu se fechou muito desde a manhã e aquele meio-dia e além ensolarados e é hora de ir embora.
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23 12 00
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