VP 37

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(E) ..... Vindo por esta tarde alargada, tão prenha de luz, com o vento pelas ruas cruzadas, e no céu os azuis, o verde das gramas, laranjas, amareladas, a variante colorida da fachada das casas e tons pastel, o vermelho intensivo da lanterna dos carros, das placas, os marrons, os subtons que passam batido, o branco e os cinzas quase imóveis das nuvens isoladas, e também a cor dos sons, as cores todas de todos os sons – é impossível não recorrer de novo a Guimarães Rosa: O ar é ágil, a gente habita-o levemente. Está certo que quente, mas ágil, cheio de trocas de direcionamento e calor, moenda do movimento, máquina de reciclagem do mesmo (do que é igual). Na esquina a noroeste (tendo a Marginal como sul, o prédio preto e de espelhos e de heliporto vermelho com biruta amarela como norte) existe uma luz impressionante, aliás luzes, aliás mais impressionantes se vistas do lado de lá se de lá se chega: o sol bate nos três paus-ferro (também num quarto mas menos), nas moitas, nos bancos, nos postes e um deles com a placa PARE, mas também bate ao contrário, raios contra raios, eles refletem no prédio espelhado e se cruzam com os outros no canto: na grama, nas moitas, na placa e nos postes, nos paus-ferro, principalmente: na copa deles; essa ramificação de galhos procurando o alto, veias de madeira ao céu aberto. As faixas de sol se encontram nesse lugar como num jogo de espelhos. Tem também a placa com um E com um X o cruzando; ele é maiúsculo e preto o X é vermelho, embaixo está escrito INÍCIO, dali adiante está proibido estacionar, dali pra cá tem pelo menos uns dez carros parados. Parados estacionados, não em engarrafamento, tem trânsito mas não é louco, flui, se vai, esvai-se como ar, como as nuvens que por exemplo desde aquele momento bem ou mal mudaram muito, como o noroéstico jogo de espelhos que, implacavelmente, já não é o mesmo. Uma mulher na entrada sob o toldo do hotel passou a mão nos cabelos; eles se espichavam com o vento, a blusa clara dela ficava mais clara pelo sol. Aquela antena no telhado, prato côncavo iluminado por olhar o ocaso cara a cara, talvez capte do sol e de São Paulo, da atmosfera e do ar ágil, muita coisa. Uma moto, pessoas espaçadas (mas constantemente), mais moto, aquele casal, um grupo de quatro mulheres sai do outro prédio, a luz do freio brilha dentro da luz da tarde quando o carro para por dois segundos antes da curva; duas das mulheres do grupo atravessaram a praça, passam perto, dá para ouvir a risada de uma por qualquer coisa engraçada da conversa; aquele casal passa de novo, dobram a esquina pela terceira vez em frente do PARE, vá saber há quanto estão nesse exercício rodeando a praça.
.......... Os paus-ferro com muita ou pouca luz continuam bonitos. A suspensão das ramas, as manchas não-imóveis, pele que iça-se. Outra imagem: rios, com afluentes e afluentes e afluentes..., buscando o alto.
.......... A frase de Guimarães Rosa vem da sua A Estória do Homem do Pinguelo, lá pelo início.
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27 12 00
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* Na volta: uma única e gigantesca nuvem, distante, embaixo sem fim no quebrado horizonte, em cima arredondada numa curva espaçosa, inflada de luz pelo sol de trás parece um cogumelo atômico, só que mais do que muito-mais-que-lento, pacífico, belo no destaque do azul. (Digo “parece” porque foi agora há muito pouco, porque com quase toda certeza ainda está lá agora, agora mesmo, porque ainda o vejo quando o tenho aqui comigo, quando o relembro para rever.)
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