VP 38

.
.
.(C) ..... A princípio eu pensei que a A seria a preferida, e até, disparadamente, a mais usada; não que não seja “querida”, é e muito, mas com o tempo a preferida parece ter se tornado esta. O seu simples terreno plano, retangular e com o X no meio, partindo dos cantos e a dividindo em quatro, os quatro triângulos gramados, e as árvores espalhadas por todos, diferentes mas mais ou menos da mesma altura, a moita com flores vermelhas e roxas, a grande árvore da “entrada”, e mesmo a zoeira da avenida, à frente, com a calma comparativa do bairro, às costas. Principalmente então quando há sol, e principalmente quando é a pino de um meio-dia: cada planta desembainha sua sombra precisa, o X do caminho fica mais caminho, nos verdes não deixa de haver um embutido, mas amarelos laranjas solares com uma luz forte mas receptiva. Não como hoje. Hoje esta garoazinhazinha chega tinge microscopicamente esta página. A avenida ainda zoa. A praça vazia – acaba de cruzar um único homem de boné rubro-negro e dois sacos de legumes e verduras. Nem Laika nem guarda tomando conta: a cadeira dele encostada no caule, aberta mas sem gente; a casinha dela toda embrulhada numa lona preta; só se estiver também embrulhada ali dentro. Os depósitos de lixo cheios (fim de uma prefeitura entrada de outra, e a passada foi uma lástima). Dia 31 de dezembro de 2000. São umas... 15 e 30? Esta árvore a dois metros e de frente ainda é um pé de um broto; me olha com seus grandes olhos de folhas, verde-claras, às vezes menos pelas próprias sombras, muito bonita. Vez em vez rojões pipocam. Os cachorros sofrem. Olhei pro lado agora, parecia vir o vulto de alguém na minha direção: nada. A zoada da avenida. O “Conservatório Musical Paulistano”, fechado. Um pássaro grasna e a princípio não localizo; em seguida estão ali, não é um: passam exatamente sobre a praça (cortam o X, o cruzam mais), grasna e dá braçadas o cardume aéreo, é um triângulo, quase um triângulo, de pontos negros. De repente parece que há muito a dizer, e de modo veloz. Naquela árvore lá da ponta, que hoje me parece uma figueira, há sobre as raízes e a base um grande vidro estilhaçado. Um carro buzina. Os verdes e por exemplo o da palmeira dentro da grade daquela casa. De repente pode acabar o que dizer, e a velocidade nem foi tão rápida. Ouço vozes. São daqueles dois homens, parados com dois carros e consertando um deles na esquina.
.......... Rojões em sequência.
.......... A mulher com o bebê no colo vindo pela rua ambos vestidos de branco.
.......... Às vezes você olha pra cima e vê à contraluz e contra você os pequenos pingos: parece neve, uma neve mínima, apesar de eu nunca ter visto uma, pessoalmente. (O amarelo das flores desta – sibipiruna? – também como flocos.) Feliz ano. Novo. Século. Milênio.
.
31 12 00
.
.

Nenhum comentário: