VP 39

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Tendo ali vestígios de pré-idade?
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Rosa, Tresaventura
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(novamente de exceção de novo: Sé) ..... Dia primeiro, 2001. De manhã, não são 8 ainda. Eu não queria perder a oportunidade, de estar aqui nesta data, apesar de só serem uma data e um lugar, mas estes, únicos. Me sento de novo nos degraus da escada (frios, na verdade) (e o diabo dessa calça fina não ajuda). Aquela garoa de ontem parece que persiste, intocada. Mas no caminho de vinda aqui e ali um azul se abria, e ali a leste o clarão do sol cada vez mais branco e claro vara as nuvens, e ali ao norte, por trás dos prédios que o ponto de fuga que o corredor de palmeiras mira, se avista mais azul. Que dia será possível dizer São Paulo está vazia? E se quando isso for, se for, ela terá vida. Ingenuamente pensei que numa hora dessa num dia desse essa praça poderia estar às moscas; nada: não é como num dia comum, mas gente passando não para, grupos em volta das bases redondas das palmeiras, alguns abrindo algumas lojas, a farmácia com 5% de desconto, um cheiro ardido misto de fezes e urina (depende de onde bate o vento, e quando), aquele homem de mãos pra trás caminha de olhar baixo, aqueles três garotos de bonés e gorros cruzam o átrio e um me olha curioso ou desconfiado, aquela mulher veio vindo, se aproximou e disse bom dia: você sabe se ela vai abrir daqui a pouco? – apontando pra porta de madeira fechada da igreja; respondi que achava o que já não é de hoje: está fechada em reforma – o que ainda confirma a placa; perguntou de outras, falei de S. Bento e Sta. Efigênia, ela disse que já vinha de todas, todas fechadas, obrigada e feliz ano-novo, foi embora com sua fé à deriva e um sorriso sozinho no rosto. Os postes de ferro. As palmeiras distintas. Até há pouco estava engraçado: podiam-se ver os finos fios de chuva contra o sol saindo (cada vez a caneta mais derrapando), agora a página seca vê cada vez mais a luz do dia, o ar úmido mas sem água palpável. Um carro de polícia vem da direita, invade o calçadão com pressa e passa sobre a rosa-dos-ventos brecando lá depois dos mastros; outro; brecam onde já estava um terceiro (ou o primeiro), tanto alvoroço aparentemente dirigido a coisa nenhuma. O sol vem de monte. As faixas das palmeiras cortam a praça de leste a oeste. Outros cinco caras sentam nuns degraus acima do meu, veem revista, conversam; outros dois mais no canto, conversam também, tomam o sol que pareciam ter esperado. São Paulo. Aquele senhor de cabelos brancos e muito sujo passa carregando um sacolão e quase esbarra no marco do centro. Os ônibus. Um outro policial para e de colete à prova de bala sai do carro e bate a porta acintoso e entra no boteco. Pessoas passam, pessoas se sentam, pessoas olham e pensam, pausam, aquele homem elegante aparece trazendo uma única rosa rosa à mão esquerda, atravessa a praça de sul a norte e some no fundo. Um outro, descabelado, cruza a mesma passagem usada pelos jovens, segura um papel amassado e grita enquanto anda, mais ou menos para o pombo mais ou menos para si mesmo: ca-aaalma!... caaalma!... Uma sirene. Um helicóptero. Os ônibus. A catedral calada de cima a baixo, de pé, assiste. É preciso ser jornalístico: assiste enxergando, não dando assistência. Um arrulho. Um som de uma máquina, que eu não vejo que eu não sei se vem de onde, parece que está polindo – sei lá como, nem quê. A cidade se despela do século emerge no outro, carrega seu corpo comprido, massudo de anos, de seus acontecimentos internos, encontra o novo milênio – um milênio novo? Revoo de pombas, malhadas beges pretas brancas, de tudo que é jeito. Esse cheiro ardido. À esquerda na rua que passa passa um carro dos bombeiros escrito com letras grandes no costado BOMBEIROS, acelera e buzina. No penúltimo andar daquele prédio na janela da direita há uma pequena bandeira verde e amarela do Brasil colada no alto. O céu já é quase azul completo. O escadario, sujo. Os três orelhões sem telefonemas. Aquele homem fumando e barrigudo com uma camiseta azul vivo. São Paulo no século. A cidade entra no XXI. São Paulo dentro do milênio. O mundo. (Uma sirene lá da direita passa por não sei onde que faz um ribombo na acústica.) Como ia dizendo: (...aqui não dá tempo; mais bombeiros, agora sirene e luzes (foram deles os ecos)) O cara no degrau acima está falando da cidade; fala bem, fala mal; numa hora diz se eu tivesse condições... se eu tivesse condições... fala mais uma vez e não completa, parece gago ou a definição é muito difícil, depois fala do país: o Brasil é bonito, lindo, tudo isso... mas é atrasado, é um país atrasado. Um bêbado descalço passa sobre os ladrilhos e acenando um joia nos chama: rapazeada, aí... – o rapaz que está falando sobre o Brasil e os outros países lhe dirige um falô! sem perda nenhuma de fluência e continua discursando. Uma nuvem maior. Um carro rápido. O discurso se exalta: eu sei que não votar é pior, mas eu não voto mais, quer saber, porque a gente vota e esses filhos-da-puta só roba. Os olhos vermelhos dessa pomba magricela passam vindo e voltando no seu dar-de-ombros; anda logo no degrau abaixo, o pescoço preto tem as penas prensadas como se um dedo irado a tivesse tentado esganar, e quem sabe tentou mesmo. Não disse mas agora digo: os mastros sem bandeira. O sol retornando. O Sol: sobre o marco, no corredor das palmeiras (esfatiado de lado), re-vindo; revindo-nos. (Fui embora: e quando me afasto vejo a catedral me vendo afastando-se – ou a catedral não vê nada, só eu a vejo? E vejo o que não vira antes nem nunca até então: tem até dois vidros quebrados, em dois pontos os vitrais com buracos, tristes.)
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* Na volta, pelas ruas, mais de uma, de duas, de três, mais... pessoas catando em diferentes lixos, procurando, coisas interessantes, possíveis, úteis.
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