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(C) ..... Logo à entrada, num dos braços do X da encruzilhada, uma árvore corta a passagem: tombada, sua copa de folhas duras e pontiagudas ocupa bem a largura de asfalto-e-pedras e com o tronco na grama forma uma espécie de seta, vá pra lá, daqui não passe, ou contorne o caminho ou dê meia-volta. Contorno, sigo, tentando imaginar que tempestade foi essa, que machado ou acesso de raiva a tombou nos últimos dias; passo, olho, não vejo, o madeeeeeira da sua queda caiu no passado que leva, talvez sem testemunha ou amparo como o de tantos em tudo quanto no mundo é floresta. Numa das quinas, na calçada, entre os dois cestos de lixo maltratados e com chapéu de pirâmide, um bassê muito calmo, sem coleira, livre, fareja parado o chão em que pisa. A vários metros, perto do orelhão, há uma casa de cachorro, talvez dele, talvez do vira-lata que deitado no outro lado da rua vê a paisagem enquanto sua pela língua; seja de quem for deve ser do cachorro do vigia que na cadeira próxima à casinha vigia sentado com os cotovelos nos joelhos e mãos no queixo alguma das casas que vigiam a praça com suas janelas – às costas, em letras amarelas sobre o colete azul, SEGURANÇA. Daqui desse ângulo (sentado, num dos gramados em ponta da encruzilhada) pode-se ver o camada-a-camada das distâncias dos troncos, aquelas flores muito azuis ou violetas na moita, pode-se ver que os cães se foram, pôde-se ver aquele passarinho que agora há pouco tomou um banho na poeira e pó que no centro do X se acumulam. Voou com o outro que não tomou banho, apenas o olhava tomando. Pode-se ver esta pedra aqui do lado, claramente “humana”, pedra tão reta tão cortada tão deslocada só pode ter sido feita, não apenas ter sido sido; cuja trajetória “produzida” não enxergo, tanto quanto a queda do tronco. As dezenas de graus da epígrafe estão no sol incidindo, mas de vez em quando (e mais e mais) sombras arrastam um frio verdadeiro e despencam a temperatura num abismo. Talvez a árvore tenha se suicidado temendo o verão violento; talvez de uma vez por todas tenha corrido do barulho da avenida e tropeçado na fuga. Um novo Pirajuçara passa, quando para uma senhora do banco da frente me olha intrigadamente.
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* À saída o bassê sumiu de fato, mas o vira-lata dorme no morno templo de debaixo de um carro.
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(D) ..... Esta, como a B, tem só duas ruas que a abarcam; dos outros lados, casas; ou melhor: muros. Aliás são gêmeas: se àquela dão os fundos da paróquia, a essa dá a frente; sua fachada de tijolo, a placa PARÓQUIA SÃO JOÃO DE BRITO. São gêmeas também no traçado, no mesmo branco da tinta, no mesmo tipo de ladrilho, no mesmo mato. No mesmo mais ou menos malcuidado. O traçado não é gêmeo univitelino, ou se do mesmo ovo não idênticos: são traços parecidos, uns outros jardins ilhados, umas outras séries de curvas, outras muretas nas bordas, outros postes mas aqui apagados. No centro há um bosque que parece gigantesco mas é pequeno: arrancaram suas células de uma brenha norueguesa e transplantaram num bonsai brasileiro; o raquiticompuseram. Na base de um de seus troncos, largada, uma pasta bem azul aparentemente vazia; lixo ou esquecimento, o que dá na mesma. No bico de um dos canteiros um pinheiro, no lado oposto uns três troncos mais baixos de folhas largas, chapadas, logo além num dos jardins redondos e elevados muitas outras, pontudas e amplas, cocar de índio com sua cabeça gigante talvez enterrada por baixo; é uma droga não saber dar nome às plantas. Do outro lado da rua a floricultura: FLORES em vermelho sinuoso do letreiro luminoso. Atrás do muro onde na B seria o prédio, uma torre de anéis largos em branco e laranja; em cima um patamar em triângulo, de uma das pontas dois cabos. Não sei o que capta, o que recebe, se oferece panorama ou transmite o quê; ergue-se maciça, vazia no topo, os cabos balançam, o bicolor de sua estacada na solidão além-muro. Uma flor muito amarela, umas dez a vinte vermelho-laranjas, uma outra moita com aquelas mesmas azuis violetas. Um rapaz com violão senta-se numa das curvas em banco e tenta arranhar uns acordes; eles vibram, ressoam, se misturam com o som dos pássaros, de algumas vozes, dos carros; depois desiste, ouve um rádio colado ao ouvido, pela atenção provavelmente preocupado com um jogo; depois volta ao violão; depois quando olho some: não tem mais jovem nem acorde nem transmissão. O azul com o cinza do céu não entram em acordo. Assim como o sol e o frio do vento.
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29 01 00
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