VP 40

.
.
.
(E) ..... Estar na E é estar sob esse verão que já deixou os “35 grados” para trás há muito tempo, devem ser agora uns 40, menos nessa sombra, menos nessa brisa muito suave. Um urubu parece ter saído de uma das varandas do prédio moderno mas na verdade surgiu por trás; depois deu círculos (ainda dá) sobre a praça e o seu reflexo está dentro das janelas de espelho negro do prédio frontal. Quando um urubu pousa aqui em meio à cidade? A escultura marca a hora – quase duplamente, já que os pinos se abraçam e um segura a queda de um pra lá, um sustenta a outra queda pra cá. A luz dupla novamente, novamente nos paus-ferro e grama, novamente: realmente bonita. A rachadura das sombras sobre a camada de ladrilhos. Os riscos-limite dos ladrilhos dentro e fora das sombras. Naquele banco havia um filho já calvo com seu pai e mãe idosos, o pai lia um jornal e deu um espirro, espirro escandaloso como um torpedo e seguido de outro, continuou lendo e os outros olhando a praça mais um pouco, o filho se levanta e o casal o segue, agora sumiram. Azul e grandes nuvens. Às costas essa moita está cheia de flores e recende, mas faltava cortar um pouco, se você se escora muito te espeta e pinica te envolvendo. Azul – e as grandes nuvens parecem elefantes pastando, pacatamente.
.
*
.
(G) .... Aqui é a G. Aqui não tem sombra, pelo menos aqui, nas “ruínas”, a não ser por esta agora, os elefantes parecem estar se unindo e cada vez mais encobrem a baixo. Deste cimento a temperatura não cede; acho que continua a mesma brasa que com sol em cima, mas sentável. Volta (o sol), daqui se tem mais visão das nuvens, são muitas, grandes, mas houve agora um espaço e a luz lava a praça de ponta a ponta. (Este degrau não está fácil, me levanto.) A minha sombra marca a hora dentro da curva do segundo degrau de cima pra baixo – que horas? As pombas pastam como em cima os elefantes. Só que catando piolhos, carrapatos, seres mínimos do couro cabeludo terrestre; eles... o quê? catando o ar da cidade, a visão da gente pascendo, o nosso oxigênio e o seu chão leve. Na cama sob a árvore o homem não mais dorme nem está deitado: talvez houve uma mudança de fim de ano, encontram-se entulhos, uma folha seca de palmeira, um toco que parece uma cruz de Cristo apoiada na base (e é mesmo) só que sem a haste de cima e com um Cristo muito magro. Me sento aqui no alto de uma rampa agora que uma sombra volta. Mas o calor é o mesmo. (Durante todo esse tempo não vi ninguém dentro da praça, um ou outro nas bordas, nas outras calçadas, está certo que é sábado e férias de janeiro (no cabeleireiro e no estacionamento dos prédios está cheio), mas é raro.) (Saindo vi dois homens vindo um mancando se dirigindo aos entulhos da árvore – quem sabe retomando a morada. E passando perto não era cruz coisa nenhuma: era mais uma armação em T como uma forca dupla (aliás os dois lados com aquele apoio que liga as partes), e o que parecia um Cristo magro era o desenho de uma queimadura, marca fuliginosa de um fogo.)
.
*
.
(F) ..... Eis F. Quase o mesmo vazio, dois meninos de bicicleta, um homem com seu cachorro solto, uma espécie de bassê com vira-lata farejando o assoalho. Uma tira amassada de jornal colorido se arrasta atravessando o caminho tocada pelo vento. Lixos, um dos cestos cheio, quando digo lixo falo do do chão, papéis, aquela garrafa de plástico, um canudo, esta tampa de lata esta garrafa de vidro esta sacola de papelão e entre o mato. Não estou no palco; ele está ali aberto mas fechado para espetáculo, o atril ou monumento falido muito pichado, a um canto há o acesso para um cano ou controle de água, destampado. Estou num dos bancos – verdes mas já bem descascados. Só os pássaros saltitam. Dois dentro do palco, outros vários pelo resto, no gramado, pela terra dos pequenos morros. Agora nem mais meninos. Antes: um deles passou de bicicleta, me olhou com um olhar calado de interrogação, foi até ali àquela árvore perto onde havia um tipo de fantasia mais ou menos de 1 por 1 m aparentemente maltratada e abandonada. Era em formato de um molar com olhos e boca sorridentes desenhados, atrás escrito CUIDE DO SEU DENTE. O menino apeou, pegando animado o objeto falou ao outro lá longe: já pensou se eu visto isso e mostro pra minha mãe? O outro veio, o que já estava vestiu mesmo, dançava de dente enquanto o outro ria e o primeiro cantava eu sou dente!... eu sou dente e a minha música é pra todos!... Tirou e um ajudou o outro a embrulharem na garupa da bicicleta e levaram. (Depois de um tempo voltaram, estão ali dentro da piscina andando em círculos, de vez em quando um derrapa e cai e reclama que está liso, mas não sei do dente.) Entre a moita de flores rosadas e inclinadas pra baixo e como copos e a mureta baixa e de branco-lascado da margem do palco, há o amontoo de uma garrafa e sacos e coisas, lembra as duas abóboras que vi ontem de passagem na C e na A: a primeira sobre o vértice de dois troncos, talvez estivesse cheia mas não tinha nada em volta; a segunda no chão de grama, à sombra de uma copa, estava sobre um prato e coroada de espigas de milho – vai ver é um tipo de trabalho, ebó de abóbora que está na moda ou sempre existiu e eu não conhecia. O daqui não tem abóbora, e parece inofensivo ou muito esculhambado. Os meninos se foram. E as bicicletas. Três meninas surgiram; duas ensaiam um pega-pega – depois com uma coca-cola vazia de plástico improvisam um jogo de queimada engarrafado. Mais nuvem. Um casal cruza a praça. (Silêncio e uma lata se arrastando sozinha.) Ele um senhor de óculos, ela uma mulher mais jovem com um molho de chaves numa mão, um saco com alguma coisa na outra. Uma manada se reúne em visita a todo o azul. Haverá uma festa.
.
6 01 01
.
.

Nenhum comentário: