VP 41

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(D) ..... Estando na D está-se aqui: as letras de FLORES no neon, o balanço da perna que a garota deixa para fora do banco enquanto conversa com a outra, o cachorro com elas, na guia e coleira, de pé, olhando, o marido que amarra o patim no pé da esposa (ou amiga, irmã, namorada, prima,...), a contorção dos troncos no bosquinho em degradê de camadas, os mais fundos escuros, os mais próximos menos, o poste como um monumento fino, com cúpula mas de lâmpadas desprotegidas, isolado, a possibilidade de se sentar nesse degrau baixo e ir escrevendo só ouvindo uns sons de pássaros e um resto do bate-papo das amigas e o som da esposa – anda de patins agora e o som da bola de vôlei que o marido quica sentado –, as moças se levantaram e passam com o cachorro (é um boxer), a bola de vôlei espirrou revoltada na moita a mulher já sem patins a busca, este pinheiro aqui atrás e em cima, aquela pinha seca e levemente inclinada de pé no meio do caminho; o casal joga a bola num vôlei entre si, por isso a bola espirrada e eu nem tinha visto; uma mulher com dois poodles e um filho na bicicleta, a oscilação suave mas geral da ponta dos matos, esse cheiro de chuva que não chega, que talvez venha – o neon das letras na verdade está vazio e sem neon, esteja dito. O casal continua o vôlei; a mãe se sentou com os poodles e massageia um pé; o filho pedala. Aquela casa ao lado da floricultura é uma construção há muito tempo interrompida. Os tijolos à vista. O portão de uma madeira fina. A aparência do muro só caiada, tudo há tanto parece que aberto para levantar-se e do levantamento até certo ponto então para sempre fechado, fechado. Formigas. Outra pinha. O orelhão lá do outro lado sem gente e todas as varandas de esquina daquele prédio vazias. Passa um beija-flor – foi um beija-flor? – foi muito rápido.
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(B) ..... Estás na B, leitor ou ledora, leitora ou ledor. É fácil: só atravessar o estacionamento da paróquia hoje aberto, na verdade daqui vejo parte daquela copa lá na D. Aqui estas outras copas. As dos jardins suspensos em círculos, as dessas 5, 6, altivas e altas da área maior gramada, a daquela, lado a lado ao banco branco, ramificad'esbelta, aquela de uns 3-4 m florida em rosa vivo. Faltava uma varredura, podagens, etc. – mas não sei por que esta praça costuma ser mais animada, mais habitada pelo menos ou habitável apesar da sujeira ou do descaso, do maltrato. Ali naquele banco uns cinco jovens conversando, na área de círculo com alguns tufos de mato um homem e uma mulher puseram cadeiras de praia e se sentam, uma mulher com um cachorro, outra com dois outros, uma folha seca cai e para entre os galhos secos, um sujeito chega com um rotweiller na guia e um pequeno solto, o solto corre e arrepiado se agita e fareja em volta dos dois da mulher que, duros, o olham. Outro poste de centro. Os dois à esquerda e à direita de onde estou voltado. Todos acesos. E o dia, ainda, também aceso. Ao pé de um daqueles grossos troncos uma cesta com papéis de embrulho e laço em cima – não de abóbora nem esculhambado, ebó chique? As varandas daquele prédio e também daquele terceiro também sem gentes – todos os prédios parecem abandonados. A campânula dessas flores no início claras e chegando nas pontas a um laranja bem escuro. Os postes iluminando, o dia iluminando, o chão recebendo os restos, o pó, tudo. (Se você se deita no banco e ergue os olhos: pode ver de um e de outro tronco a saída dos ramos cada um de encontro ao céu apontando e imprimindo a folhagem, rendados.)
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(C) ..... A C de manhã e na maior parte da tarde ficou com o sol em cima, as sombras tão delineadas na grama gravadas, aquela moita uma bola luminosa, aquele amarelo sobre a copa mais amarelo do que nunca, quando ali o oiti (digamos que o seja) despeja uma das deliciosas “sombras-poço” como diz João Cabral das das mangueiras, quando ali a desse abacateiro (se é que) em que me apoio e emparelho, quando idem a do cajueiro, a daquele imbuzeiro, do ingá da mamoneira da suinã da sapucaia do piracá do cambuí da canafístula da jabuticabeira... ...as árvores da praça não são tantas mas todos os nomes estão aqui. Não agora. Agora o sol de pano, alvíssimo quase devassando, é essa bola desfeita no teto espesso que ao que parece e contudo não vai chover. O cipreste de dentro da casa balança a cabeça: mais, ou, menos... mais, ou, menos... Uma formigona preta fica muito intrigada com meu pé. Outra, quando vejo, já está no cadarço. Com o Sol até o zum da avenida é outro – talvez –, agora é esse: zoando sob este céu de buracos, com uma grande capa a oeste e cada vez mais ao sul e subindo nos outros cantos, zoando como não aqueles dois senhores que no lado externo caminham na calçada, como não a mais pessoa nenhuma que não está nem no xis nem na grama, como não o cipreste que continua e pondera, se inclina, balança. Um toco. Um saco plástico azul. Galhos, papelão, é esse resto de corda é esse papel de biscoito, é o asfalto do xis é dentro da planta aquela garrafa de plástico. Nem é preciso força e a gente vê que Águas de Março (a música) está aqui e ali, ou lá, o tempo todo. Um mundo das formigas está aqui embaixo, eu é que estou as pisando, por isso a investida anterior, sua aparente expedição na verdade movida a contragosto. (Um helicóptero, uma moto com um homem de vermelho, as sombras antigas muito diluídas, aquarela de muita água por esse céu diluído em si mesmo.)
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7 01 01
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* Quando estava lá pelo “sol de pano, alvíssimo”, encostado no (suposto) abacateiro, um carro de polícia veio pela Bandeirantes, reduziu a velocidade e me olhou de soslaio, seguiu e depois voltou saindo da Brejo Alegre e parando soltou uma só sirene (talvez pensando vamo vê como ele reage, se corre, se treme, se se delata em algum crime), fui escrevendo e entre rabos de olho vi que contornaram a praça na sua sinistra cabotagem e sumiram à esquerda na Nova Independência. Queria saber se se eu fosse preto (imediatamente preto) eles iriam ficar só na sirene e de longe.
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