VP 42

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(A) ..... A. Antes vim e injetei aqui mais um texto como aqueles antigos do Drummond e do Rosa no passado. Há tempos tinha separado este e quase acabei não pondo, ontem o revi anotado e soou o gongo da última hora, vai então agora finalmente, afinal de uma vez por todas, o que é que custa. É um trecho intrigante do Dostoiévski, das suas (aqui tão cabíveis?) notas de inverno sobre impressões de verão, nem sei quando o imaginei assim usado, preguei com tachas verdes num papel também ecologicamente verde naquele tronco do chapéu-de-sol ou seria um ceboleiro, a árvore fica atrás do banco na bifurcação que divide a descida em duas rampas, quem for optar entre uma e outra se depara com o texto de frente quando vai chegando. [escrevo vai chegando e quando olho um cara se aproxima de lá com dois cachorros, segura as guias e olha o caminho, passam do lado do tronco mas ele não vê o texto ou quase vê mas não enxerga, está interessado no passeio] O que contém é:
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.......... [...] Sabem o que eu penso? Pode-se até ser um canalha e não perder o sentimento de honra; e há um número muito grande de homens honestos, mas que perderam de todo o sentimento de honra, e por isso procedem ignobilmente, não sabendo o que fazem, por virtude. O primeiro, naturalmente, é mais depravado, mas o segundo, como queiram, é mais desprezível. Semelhante catecismo de virtude constitui mau sintoma na vida de uma nação. E, quanto a tratar-se de casos isolados, não quero discutir com vocês. Até uma nação inteira é constituída apenas de casos isolados, não é verdade?
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.......... Ao contrário dos outros este não está plastificado, queria que viesse hoje e não deu tempo. Se cai um toró, foi-se. Um grande azul encobre o verde (estes pequenos verdes deste quadrado) mas nuvens margeiam em volta, coroam de todos os lados, grandes, menores, em fiapos ou com a base cinza, se movem muito pouco, às vezes se mesclam trocando a forma. (O breque do ônibus ronca, rouco.) (Ninguém passa no caminho. A bifurcação em ponta com o banco, a árvore, só vento e sol e sombra.) Uns cinco jovens de bonés e muitas vozes com cigarros se reuniam no banco de uma das rampas, cogitei em pôr o texto do outro lado do tronco e se assim fosse talvez eles vissem, do jeito que está o papel lhes dava as costas, depois eles atravessaram, foram até aquela árvore bem no meio, agora chegaram aqui, continuam falando (muito) aqui também na mureta, cuja ponta na qual são minhas costas agora que se viram enquanto vejo de onde vieram. (Uma presa! O sujeito barbudo e de uniforme azul-escuro talvez funcionário daquele estacionamento e nuns minutos de folga, foi chegando pela rampa oposta às que se inclinam, se desviou do banco o ultrapassando e parou de pé encarando o texto; eu fingindo ler o vejo: começou a ler as primeiras linhas depois se interessando despachou um olhar desconfiado a cada lado e daí encorajado deu mais dois passos tendo o texto enfim cara a cara. Leu inteiro (parece); acabou, deu uma meia-volta, quase um giro, voltou ao banco e simplesmente se deitou com tudo – olhando acima e depois pondo o braço nos olhos, talvez pensando no lido talvez esquecendo, só relaxando e o limpando do cérebro. [no tempo em que eu durei escrevendo isso ele ficou deitado, agora há muito pouco se levantou e saiu passo a passo calmo e fumando depois de acender um cigarro]) Bifurcação, novamente zero. Aqui atrás o papo continua no máximo. C'é lôco, mano? E bala lá ricocheteia? Só em filme, tá ligado? Lixos: também nesta. Sacos, mato alto, papéis e maços, aquele copo branco de plástico rasgado, vamos ver se a troca da prefeitura é completa. O sol, generoso, tinge de amarelo tudo, principalmente o que é mato, folha, verde – tinge-nos. Parte da turma do papo solto se despede, tchau mano, valeu mano, então até amanhã lá tá ligado? O sol, indiferente, está exato, pendura-se como um OVNI, despende brilho e calor aos píncaros, à larga dose para os seus cem mil lados. Um dos daqui de trás se aproximou: por favor cê pode me emprestar o fogo?, só falei a verdade: não tenho – ele voltou decepcionado. (Um casal: é um homem e uma mulher no mesmo passo, se aproximam diretos e leem o texto, ela começou e parece não ter gostado, se senta no banco e espera enquanto o outro parece que o lê inteiro, ele termina ela levanta-se, continuam depois que ele comenta algo e conversando atravessam a rua – acho que ele entra naquele prédio ela dobra a esquina, passa na frente, através do brilho vivo que o sol faz sair do capô daquele carro.) [Uma minijoaninha caiu bem no travessão entre rua e acho e ficou; pensei que estivesse morta, vazia só casco, a toquei e saiu andando, apressada com suas manchas simétricas e em marrom-escuro sobre um fundo bege.] Três dos rapazes se deitaram um pouco depois foram embora, não tem mais nenhum; um avião passa muito alto mas é visível e se ouve o barulho; duas garotas chegaram, sondaram mais ou menos olhando aqui os paralelepípedos e o muro, mas como ocupado por este parecem desistir e se foram ali ao vão do teatro, fumam e se sentam na arena. Conversam. Um homem e dois cachorros. Ele se senta, acaricia a grama e arranca algumas, os dois soltos. Uma mulher com dois pequeninos nas coleiras se aproxima e se senta no banco de costas ao texto; um dos soltos chega, um dos minúsculos (sobre o banco ao lado da dona) late de medo ou ira ao ver o assédio, o solto volta calado enquanto o dono se levanta esquecendo da grama. O sol mais luminoso; o chão com as sombras mais iluminado. A mulher nem os cachorros veem o texto, pelo jeito não verão nunca. As duas no teatro: conversam. O som de um telefone longínquo – talvez da esquina de dentro da loja com aqueles dois vidros. Uma outra com um outro cachorro chega e conversa de pé com a mulher do banco; agora são cinco sem ver o texto. Três outros de boné e cigarro descem os degraus e cumprimentam as garotas, a arena tem público, são outros cinco conversando. O sol mais ainda iluminescível: o chão mais amarelo, as sombras mais verdes e escuros. Um homem chega ali perto e aproveitando o declive diagonal do escorregador se deita. As mulheres continuam a conversa com os cachorros calados; nada de texto. Na plateia da arena também continuam. O sol chegou a um ponto que o vidro do carro naquela outra rua me achou aqui em cheio; possante holofote em pleno dia, feixe de faíscas, com foco. A torre de energia. Mais um avião passando. A mulher do banco agora está sozinha, aliás: com os dois cachorros, o menor ao seu lado e como ela sentado sobre o banco recebe um seu beijo na testa, um beijo bem sobre a cabeça, quando a mulher se inclina e com a mão esquerda lhe faz uma carícia no pescoço. Tremem dentes-de-leão, treme aquele resto de pipa no fio da torre, treme, cada ponta verde está tremendo. Favônio? A quadra e as copas, os gols improvisados, os vestígios dispersos, as ruas dos quatro lados, céu, gentes.
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8 01 01
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A, jul.2010
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