VP 5

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(D) ..... A iminência de chuva atrapalha escrever ao ar livre, atrapalha a expectativa, atrapalha estar numa praça. É de manhã (mas não há sol nem os pingos da chuva que ontem caiu). Ainda estão a brilhar aquelas violetas da moita, os matizes verdes em muitas formas, e sobretudo as florescências das árvores à entrada do lado da paróquia, rosas, muito rosas, um rosa vivo de sonho ou de qualquer surpresa cotidiana, milagrosa – nos três chãos à minha volta há pétalas, agora mesmo afastei da folha a pele de uma. Três porque há uma espécie de Y em banco, me sento no centro do caractere, duplo vértice em que os traços se encontram. Duplo e não triplo porque não é bem ípsilon, a parte de cima é um semicírculo e a base não sai do meio, sai de quase uma das pontas e depois se quebra em forma de rabo – ípsilon cirílico ou de algum abecedário já morto. Não tem só pétalas: tem sacos, papéis, uma bandeja de isopor rasgada e borrada de barro; o capim alto do compartimento da esquerda; a embalagem de cigarro que não se faz de rogada ao marcar presença; a colher de plástico e o copo como a bandeja e a garota de camiseta e bota que joga o pau à sua cachorra e ela busca encontrá-lo na selva do capim. Numa das áreas mais abertas do outro lado um contingente de mães com o mesmo de filhos brincam perto do poste que é como uma fogueira cibernética. Esta árvore espalhada, de muitas plataformas de verde claro; parece de frente, embora de todos os lados as árvores sejam frentistas, Acácia Africana de repente transposta como aquele bosque da Noruega, agora, lamentavelmente, nenhuma girafa a come para que a gente assista ao espetáculo. O grande galhame de uma outra também partido como aquela da outra praça; as tempestades sabotam, mandam ninjas assassinos que à noite depredam à socapa. Não há mais garota nem cachorra, das mães só sobrou uma com o filho e agora um pai com a filha. Ainda estão o lixo, o mato, o rosa de todo o meio milhão de pétalas. Os penachos de uma palmeira; o plantio das folhas secas; pássaros, sempre pássaros; o ípsilon; o maço. (Uma pétala caiu na minha cabeça.) Venta, e esse vento que com certeza veio de África, silvou em savanas, faz com que passem lentas girafas.
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(E) ..... Ou melhor, só idealmente existe o quadrado, como o dessa praça em que não existe, como na minha mente existe e que o bom senso insiste que não existe materialmente. Este aqui é uma água cercada de prédios por todos os lados. Água porque mata a sede entre tanto concreto. Alguns daqui até que são bonitos, se não bonitos de algum interesse. Por exemplo esse em que muitas chapas de ferro se modulam, dizer ferro provavelmente promoveria um tapa do arquiteto, é um metal escovado ou um superpoliéster que desconheço; os módulos se escalam no equilíbrio em que só engenheiros se entendem, nas esferas em que só os arquitetos inspiram. Há um outro de placas mais opacas, um outro, idem, outros, um outro todo preto em reforma, andaimes. A chuva se segura; aliás de alguns rombos no calor da estufa... sai o sol. No centro plantaram uma escultura como um pino gnomônico; a hora será incerta pois o pino é troncho, são dois troncos lapidados lado a lado, quem sabe se de material sintético folhados a madeira, interpostos, um inclinado de leve ao oposto do outro, é uma quase qualquer-coisa diria um desses críticos delicados que não temesse os tapas também do escultor; com força pode-se até pensar que representam a caminhada mecânica do empenho de São Paulo com um toque de manifesto ou crítica ecológica na sua madeira a favor da Natureza ou contra quem a desmata; sem força pode-se pensar em coisa nenhuma. Com nada continua sendo um relógio não marcando as horas. Há muitos bancos de madeira, como esse, confortável; ladrilhos brancos plantas canteiros aparados aliás outro com aquelas flores roxas de moita tudo bem cuidado certamente pelo poder financeiro que vem do alto (o alto dos prédios que aqui tudo circunda) – a pressa não é à toa, é que a chuva quem diria não se segura tanto.
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* Sobre o banco em que eu estava havia a rama baixa de uma copa como um desses gigantes abanadores de eunuco cheios de pena. Duas amigas chegaram, provavelmente saídas de um dos prédios (era fim da tarde) e começaram a conversar ao meu redor e colher não sei quê de dentro das folhas. Trepavam no outro banco, andavam, mexiam, puxavam. Só depois pela conversa descobri serem goiabas. Não vi goiaba nenhuma, mas colheram, até, literalmente, uma delas dizer “chega”. A de olhos puxados chamava-se Jane. Das selvas.
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31 01 00
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