VP 6

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(E) ..... Eu sultão sob o estandarte da goiabeira: são mesmo goiabas, apesar de verdes, apesar de muito pequenas se confundindo com as folhas, por isso a dificuldade da percepção passada, por isso a dificuldade da colheita. Agora sem ataque, uma mera carícia ventisqueira na folhagem, a Jane das Selvas tirou férias e foi para Aruba com sua amiga sem nome. A tarde bonita pule a praça de novidades. A novidade das incidências solares, das sombras que recortam, que balançam levemente conforme as plantas tremem. A novidade da praça, plana, não ser chapada, cheia de saliências pelas cores, pelos alto-relevos que as luzes de cada coisa destacam; ali um elevado com o jardim de pontos violeta, os três – 4, 5, mais... – cestos de lixo bem dispostos com sacos de lixo novos, dois canteiros de palmeira, um com três outro com duas, depois outros dois isolados com árvores únicas, se não me engano paus-ferro, pelo menos é o que lembra a estampa das cascas. Quando cheguei bancos vazios, nenhuma presença humana; é como é uma praça em domingo rodeada de prédios escritoriais. Agora quase nenhuma: um homem de chinelos num banco como eu sentado, olha um relógio de bolso ou bússola, agora já não o olha mais, lê um livro; um outro num banco oposto, de óculos escuros come o sorvete de um copinho, olha o chão. Uma mulher com dois cachorros soltos com as coleiras se arrastando, um pai com dois filhos e três bicicletas, um homem (indiferente a domingos) de paletó e maleta e se não me engano gravata – esses todos vieram e já passaram. A Marginal logo atrás do tapume desse prédio, castelo que quase aplaca o sol, quase daqui não se ouve ou se ouve mas hoje ora veja é macia, os carros dos paulistas deslizando na menos urgência domingam. O relógio de sol da escultura é mais nobre, parece hoje edificante, é interessante andar à sua volta de perto e ver-lhe o porte, ou tamanha personalidade talvez seja por hoje eu ter visto a placa que no piso lhe indica a origem: foi a escultora Elisa Bracher quem a criou, portanto é uma ela e não um ele quem daria os tapas, é de 1998 e também vem inscrito AUTORIZADO PELO IBAMA, o que sugere uma leve suspeita de que não são “folhados a madeira” coisa nenhuma, são dois toros muito maciços de floresta marcando presença. Como relógio ainda não marca as horas, ou as marca muito perdidas, pino solar mal postado entre as sombras. (De outro banco: ângulo em que há ele duplo, majestoso, logo atrás o edifício à direita, majestoso (apesar de ser de outro contexto), logo atrás o sol e o azul, apesar de outro contexto, majestosos. (Ao passar aquele pai de bicicleta foi dando voltas em círculo, círculos espiralando até chegarem perto, quis sentir do que era feito, pôs-lhe a palma num lado, apoiou-lhe o pé e experimentou seu peso; agora há pouco um sujeito de boné passou e fez quase o mesmo, chegou de perto e deu murros curiosos, as pessoas passam e querem entendê-lo, sentir o quão denso verdadeiramente é.)) Uma mãe com o bebê no carrinho parou no banco ao lado do do toldo goiabeiro em que eu estava e agora daqui o vejo comigo desocupando-o. Todos os bancos estão dipostos, vazios, se olham, oferecem o assento ou em cada um há alguém invisível sentado e todos agora mesmo nos olhamos. A grama e seu rente, os verdes indiscutíveis; a linha divisória, nítida, com calma, dividindo ladrilhos/gramado.
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(F) ..... Agora já venta, venta forte. Aqui tem menos prédios, pelo menos à margem, a linha limítrofe mais familiar injeta de gente a praça dominical. Uma dezena de crianças, um cão, duas mães, skate e bicicletas, numa delas a menina leva uma cesta no guidom, vazia. Há aqui as cestas de lixo também, diferentes das da outra e não se pode saber se vazias como a da menina, são de um verde intranspassável, pequenas aberturas em concha (são gargantas recurvas à frente e se quiser pôr-lhes lixo é preciso inseri-lo na boca), restos de um cenário de ficção científica. Bancos brancos; os troncos também, pintados até certa altura – para que formigas não subam, dizem –; um homem em um deles (banco) deitado, duas pombas vêm e pousam e não entendem como é que o homem dorme, se finge, se morre, se mora ali. Postes baixos – também até a metade pintados como os troncos (para que as formigas não alcancem a luz?). Parece tradição, no Brasil ainda que mísero há sempre um palquinho, como nesse em que estamos, uns dois degraus de arquibancada, uma espécie de fosso raso entre ela e o palco, o palco polígono, ao fundo o elevado como um marco em que haveria uma placa ou é um suporte para discurso mas não há orador nem data de homenagem nem de origem ou a real ficção é essa pois vai ver nunca houve inauguração – e como manda a tradição nenhuma peça, nenhum espetáculo, nem nenhum inseto no palco às moscas. Para não dizer nenhum, esta formiga. Para não dizer nada estas plantas, estas flores pedunculadas com aparência de murchas, talvez não seja aparência. Adiante uma piscina (?) vazia, pelo menos é o que a parede de azulejos insinua. O que não é chão, de pedra, ladrilhos, liso, reto, com alguns desenhos geométricos em marrom e cinza, é um, dois... uns cinco morros (suaves relevos, jardins suspensos de uma Babilônia lilipútica) gramados com palmeiras, troncos e outros verdes plantados. A tarde se inclina. Aquela pessoa com o cão na coleira com ele foi embora. [Falando em cachorro duas cenas ao vir pra cá: na passagem do semáforo um saco de terra atropelado com os fiapos de alguma coisa vermelha, parecia o cadáver de um (cão) grande; uma velha corcunda – não é grifo de retórica: uma mulher proeminentemente velha e proeminentemente corcunda – de costas apoiada na grade grande de um portão de ferro, olhando imóvel um rottweiler que, imóvel, a olhava.] Venta muito. A menina na bicicleta pequena depois de uma volta em curva, de passagem comenta com o pai que conversava com o filho: cê viu, quase qu'eu atropelei a pombinha! e depois de outra volta com os mesmos olhos arregalados e a atenção sem se desprender do caminho, retruca à conversa deles cogitando irem embora: rá, a gente mal chegou! e não para como antes. (Mas venta, e o sol não dá conta da friagem.)
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6 02 00
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