VP 7

.
.
.
(F) ..... Como diz minha mãe, está se arrumando um tempo. Nuvens se enchem de cinza e passam em revista as tropas. Talvez trombas despenquem e o pé-d'água me solape sem nem dar chance de um pedido final, adeus às fugas. Mas não é de hoje isso; nos últimos dias, há semanas (pelo menos é a impressão causada), os dias encapuzam assim, o céu é uma ameaça constante, de enfartar gaulês, de não dizer se vai ou vem, às vezes como anteontem cai e não quer nem saber de conversa. Enchentes. Destroços. Não aqui, praça surpreendentemente existindo, a grama, os bancos, o mesmo teatro sem gente, as coisas mantêm-se, é incrível, é incrível a piscina ainda vã, não há chuva que a encha, faltou verba a um chafariz, o pó das lajotas, o azul sujo dos azulejos, pequeno e quadriculado dentro do círculo sem água, as plantas em volta da banca que pra cá dá as costas, agora estou na outra ponta, longe do teatro a visão é outra, mas a mesma praça, os mesmos montículos de plantas, pessoas, uma formiga não sei de onde subiu e anda pela folha, sobre as letras, quase a ponta esferográfica a atropela, veja só agora: esse sol, a existência não presta, é danada, teimosa. Tamanho céu composto, cheio de vãos cheio de vultos, de nuvens-morcegos, gloriosos, amantes do tempo tão sanguíneo: frase que um dia desses, reincidenteanacronicamente fenéstrico, apareceu ao olhar olhar pela janela, e assim com esse surpreso sol combatendo o militarismo úmido, a faz ingressar aqui. Esta quaresmeira roxa; aquela rosa, na esquina ao cruzar a rua; lindas como um espanto – espanto de Beleza, quer dizer; ou algo assim. Algo assim não: só vendo; você anda por aí e vira e mexe elas estão se lançando à cidade, roxo rosa, rosa roxo, roxo, rosa, buquês. As latas de lixo verdes; os prédios de escritório; ali um trailer de lanches e ali um restaurante vegetariano cuja placa no centro tem uma arara e um índio cuja mão faz um joia.
.
*
.
(G) ..... Esta aqui é a maior. Talvez se meça com a A; não, é menor; não sei. Tem a forma de elipse, de um ovo; ovo plano, verde, figura recortada e colada de livro infantil. O livro infantil da cidade com o espaço-lacuna a ele. No centro pra variar tem um teatro, panteão esquisito, ruína inca em que a turma de construção era da última leva e a iminente queda do império apressou o serviço. São seis degraus de uma menos-que-meia-lua de arquibancada, pode-se ficar no alto e daqui ver as palmeiras (15... 20... dispersas), pode-se ver o palco com espetáculo que não cessa porque nunca se inicia, é uma metade de bola chata com 1, 2, 3 poças (na outra metade, entre palco e plateia, há grama – talvez seja o fosso da orquestra, atrás há um piso retangular de concreto com quadrados em 4X8 e um banco compacto ao lado inteiriço com a mureta que sai do palco; os incas ou seriam astecas ou seriam maias estavam realmente aperreados). Às costas duas rampas descem do sexto nível até a grama lá embaixo; talvez para subir o maquinário ou para os espectadores rolarem logo se desgostosos com a peça sem atores. Em volta é movimentado. Prédios de escritório e de residência, casas de comércio e moradia, restaurantes, um cabeleireiro, uma ótica, A Oculista, uma oficina, o trânsito. Movimento. “Movimentos”, como diz o locutor pelos fones de ouvido comentando a sinfonia a seguir. Ainda mais agora à hora do almoço, as pessoas passam, aquele casal conversa e fuma enquanto senta-se no banco maciço, aquele poodle preto dança esfregando as costas na grama, aqui não tem formiga mas um moscão acaba de pousar, constatou a escrita e foi embora. Aquela outra quaresmeira, repleta de cor. Daqui o céu até que se devassa; muita nuvem, mas ao mesmo tempo o sol esquenta. Aquele mendigo sob a árvore tem um guarda-chuva estampado e com suas panelas, sacos, os braços cruzados sobre as pernas, olha o movimento sem parar voltado para dentro da praça mas vendo o de dentro e o das ruas do outro lado, sem parar o movimento e ele o vendo sem parar. A sinfonia (baixa) não impede o rom dos helicópteros, o rum dos carros, o rrruá daquela moto, o crepitar de vogais e fricativas soltas que viajam dos pequenos grupos e espalham-se entre tudo. O pá! de alguém que pisou num copo. Os ss ou cê-agás visuais do passo a passo macio daquela moça atravessando. Os violinos sinfônicos.
.
18 02 00
.
.

Nenhum comentário: