VP 8

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(A) ..... Atrás daquele banco um girassol solitário no jardim de mato está olhando em volta em todo o seu esplendor. Esplendor pode não dizer tudo, em todo o seu auge de metro e meio, vertical e implume, seu olho rastreia a praça inteira e projeta a sua luz; o que também não diz tudo, mas tenta mais um pouco. Alguém escreveu em tinta preta num papelão que pôs na árvore: SEJA EDUCADO JOGUE O LIXO NA LIXEIRA; à volta o colorido de pequenos lixos circunda, a uns cinco metros o cesto preto numa armação verde-escura se camufla à espera. Será que o escritor pensa ou deseja que o leitor “seja educado”, inato, por natureza? Um sujeito senta-se num banco quase perto conduzindo seu husky siberiano à coleira e pôde-se ouvi-lo suspirando: ah, como é bom passear de tarde. Um outro com seu dinamarquês preto-e-branco; um outro com seu rottweiler; uma senhora com seu cocker spaniel; uma outra com um muito pequeno de rabo muito enrolado. Desfile. Exposição ao ar livre. Os bichos vêm em rodízio e os donos em silêncio assim como os trazem levam, tudo bem coordenado mas com um quê de inexplicável mas mantendo a cadência apesar das direções variadas – como num sonho. Uma borboleta pousa na tampa da caneta e vai embora (parece invenção mas não é), os insetos gostam de fiscalizar as palavras. Dois vira-latas na coleira (coleira sem guia, só as argolas do pescoço, soltos) passam pela praça inteira, cheirando, brincando, fuçando, deflagrando realidade por onde pisam – talvez para que o girassol registre. As árvores (falo especialmente desta: aquela ao lado do poste, especialmente nem grande e pequena, especialmente de sinuoso caule com uma só folha mais clara na copa verde) as árvores são realmente um todo, um corpo engraçado; folhas, madeiro, seiva, solidez e delicadeza; fábrica aérea, estrutura cósmica, orgânica.
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(G) ..... A praça igual. Erodida pela cidade, com sua serra, de fumaça, de decibéis, de caleidoscópio caído no chão. Roendo e ruindo, ruindo-se para erguer, e soerguendo-se ser – orgânica, como a seiva no metabolismo do tronco. De novo daqui do alto – no teatro muito silencioso no centro da praça quase vazia envolta pela cidade muito movimentada – chega-se a pensar que se está num trono; mas que trono seria esse, que reinado, castelo falido ou de conto de fadas, fabuloso num contexto de seres – vivos – muito, muito maior em mil órbitas. No lugar do mendigo o guarda-chuva continua aberto mas não consigo ver se embaixo o entulho é ele enrolado ou se é só um “entulho”... propriamente. A cidade em volta talvez pare daqui a 1000 anos. Por ora nem sinais. (Por ora o mendigo chegou – não era o entulho – traz uma marmita ou caixa de plástico, abriu a tampa, arredou uma capa, sentou-se e fica olhando.) Não são mil, são milhões e milhões.
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(D) ..... Aqui é a tranquilidade. Praça encravada no bairro, refugiada, sob suspeita. (Mas na última meia hora o céu deu uma reviravolta, cinco mil nuvens cinza virando só uma, soltas não sei de onde. (A quaresmeira não quer saber de comentários, existe, apenas. (Assim o minibosque, assim a grama – com os milhões de seres que com certeza tem nela –, assim, inclusive, a torre destoante, laranja e branca. (Assim não eu, que corro indo embora.))))
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25 02 00
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