VP 9

.
.
.
(C) ..... No caminho para cá a praça é um ponto verde no fim da rua, agora estou dentro do ponto, trabalhadores cortam a grama, passam empurrando uma máquina estranha sobre duas rodas, recolhem o lixo, três dos quatro triângulos fora do X estão varridos, penteados, replantados, inspiro o cheiro do verde que faz o ponto. A procela da avenida ainda ruge, talvez ruja uma de cima, de verdade, cedendo desse céu totalmente cinza com chapadões de branco. O ar gelado no verão que virou um boato. O guarda vigia, incólume; anda de um lado ao outro, sua cadeira vazia, a casinha vazia do cachorro. (Só agora percebi: o X está revirado, arado, em parte é terra em parte ela cobre onde é pedras e asfalto, talvez a reformar-se para uma nova pele.) Nenhum cachorro à vista; a não ser o daqueles destroços – algum lixo separado – que parece um, morto, esfolado, mas não é. A árvore caída cortando o percurso ainda está imóvel e cortando, sendo que os trabalhadores já desmembraram seu tronco, os tocos com o sangue branco do cerne esperam o rabecão que os leve. Na calçada à distância os dois montes de capim (ou serão de grama nova a se plantar?) são pilhas de estrume de um gigante que eu não sei que gruta ocupa em São Paulo.
.
*
.
(E) ..... Depois do Carnaval há o Dia Nacional De Limpeza Às Praças e eu não sabia. Esta aqui também, em processo, já quase toda impecável, no jardim à direita o reco-reco do ancinho do limpador. Pelo meio do ladrilho claro umas três/quatro folhas grandes como aranhas incineradas. Atravessa o entregador uniformizado e de boné com um pacote sob o braço direito; atravessa ao contrário a mulher com um pequeno papel vermelho embrulhado na mão esquerda; no centro o monumento, postado. O som da cidade, o céu com brancos, etc. Três homens com as mãos nos bolsos passam lento e olham o monumento. Um passarinho pousa no galho que escolhe: a ponta daquele, sem folhas, a mais alta daquela árvore.
.
*
.
(F) ..... Na entrada sul a quaresmeira-mais-que-roxa te recebe de braços abertos. A piscina vazia chama o céu que, tentado, pensa em cair. Os dois garotos perto do palco não querem saber de Tempo nem Natureza nem Arte, jogam futebol com uma bola murcha de basquete, mas bem que o jogo poderia ser uma cena de teatro, num palco como esse ao seu lado sem ninguém, sem ninguém como a piscina seca chamando como um oráculo, sem ninguém como o céu cheio de branco e de peso nas nuvens. O dono da banca dá a volta e com uma vassoura e outro cabo esfrega e empurra o fundo da piscina agachado na borda, procura desentupir alguma coisa. Um vendedor de mel passa oferecendo – R$ 8 o pote, 10 o pacote – e senta-se no banco acendendo um cigarro e olhando, dá uma pausa na labuta. (...) Foi embora. A empreitada da vassoura não fez sucesso; o dono da banca se levanta e a usa como de praxe: varre. Aquela guarda – uma mulher muito magra com uniforme azul-marinho da polícia municipal – é a terceira vez que vai e volta pelo meio da praça; masca chiclete, olha, não leva cassetete mas tem coldre e arma; boné e coque, óculos. Os garotos jogam sempre. No vento pequenas folhas secas em várias direções matracam seus corpos. A quaresmeira agora diz: saída.
.
*
.
(B) ..... Quarta-feira de cinzas, mas a praça é concreta, nítida, por contraste deixa o céu ser cinza, deixa ser de cinzas o tempo. Daqui de dentro o tempo é palpável como a rama-de-pavão daquelas quatro copas vistas de baixo, palpável como o voo do avião que atravessa os vãos delas [não é que de repente lá e sobre o telhado da escola apareceu um azul não como o do friso das janelas portões e calhas da escola também azul, mas também azul apesar de outro, um pouco mais longe, um pouco mais comum mas mais único, entre as nuvens rasgadas, entre as nuvens em movimento rasgando-se], palpável como aquelas duas luzes de poste, frente a frente, já acesas. Nítido como as plantas. Como aquele arbusto meio embaraçado e balançando num ritmo; como o outro arbusto, esse próximo, menor mas de folhas bem maiores, tremeluzindo (como as luzes dos postes não tremeluzem) no balanço próprio; como o outro balanço daquelas palmas bem verdes sobre e roxas embaixo, quase rasteiras como bandeiras de uma multidão de gnomos – cada folha de folha tem seu ritmo, e no entanto é como se todas, da praça inteira, vibrassem em uníssono.
.
8 03 00
.
.

Nenhum comentário: