VV 10

.
.
.
(C) ..... As sombras não estão tão densas quanto as de um verão forte, quando é o caso de se trazer o mundo e pô-lo em fila, veja, um por um todos os habitantes da Terra a apreciar o espetáculo, a nitidez dos contornos, os desenhos de verde e verdes saindo dos troncos e galhos ou folhagens sobre o chão, é claro que o interesse seria variado, muitas ocupações urgentes, a temperatura ou a fuligem do barulho dos carros estranhando muitos, mas claro que aqui a claridade: daqueles verões (passados) ou de supostos outros a vir ou de já este outono, outono por hoje quente; a moça da foto do painel do toldo da parada de ônibus maquiada e com penteado liso sorri; dois sujeitos virados para a praça olhavam e conversavam sentados sobre aqueles dois postes novos deitados na calçada esperando virem os levantar e atar os fios; a grama não cortada; entre as garras daquela raiz da árvore da entrada onde um dia havia pneus, agora uma terra branca, argamassa, pasta, enrijeceu: pretendem congelá-la ou já chegaram a esse fim, crime descuido pouco caso ou lixo de não se ter aonde jogar, cimento sobre raiz. (A) Esta é a única dessas praças, com exceção daquele miolo da G, em que se tem de subir, que tem certas saliências, pequenos morros e curvas, suas ondas verdes coligadas, o que é bom; o que lhe dá uma certa imponência, diferença entre os asfaltos que rasgam ao seu redor (para as rodas do trânsito), lugar mais alto para estar (parar, ficar, olhar), como faz aquele sujeito ocupando todo o banco enquanto se deita (só que não olha; a dobra interna do seu cotovelo lhe cobre a vista); também aqui as sombras em várias estrias e pontos de presença; também aqui a grama alta; esta casca de banana preta sem a banana, bitucas apagadas de cigarro, duas folhas de papelão sem o conteúdo que pelo que diz impresso eram 60 potes, 90 g. – numa faixa: FRÁGIL FRÁGIL FRÁGIL, embaixo: conservar em lugar fresco e arejado; uma borboleta, a torre, focos de lixo (papéis soltos); aquele homem dentro do amarelo orelhão falando com outro alguém em algum lugar do mundo; (eu falei em morros... mas, digamos alguém de Minas, ou de alguma estância de Goiás, ou de algum interior do Paraná, ou das redondezas do Piauí Ceará dunas uma mata Acre Espírito Santo ou sei lá onde mais – vendo do que se trata isso certamente me acharia ridículo). (H) O edifício, a escultura; os movimentos vermelhos; a banca, os taxistas no ponto, o retângulo fatiado de ladrilhos, cinza-marrom-e-brancos com os dois canteiros nos lados, as árvores cresceram mais (um pouco); embaixo do arco central, no chão, tem seis vidros redondos, lâmpadas dentro, para a escultura ser vista à noite – um traçado em curva, cicatriz dos ladrilhos, une o sexteto, antigo rego provavelmente arrebentado e tapado para inserir a fiação (já falara disso?); uma mulher com uma senhora de braços dados atravessam o arco, andam e olham as lâmpadas, ela (a senhora) parece se divertir; vários passam; enquanto escrevo, de pé de cabeça abaixada, não vejo se me veem; nem mesmo os que não passam, ficam: o vendedor da banca, os que compram alguma coisa, os motoristas no ponto. (J) Tabuleiro de troncos, verde, as folhas secas pingando, o cruzar dos cimentos. As pedras, como aquelas, presentes aqui mesmo, na visão do passado. Aquele garoto cruza a praça com um andar objetivo, escorre no meio-fio de carros estacionados, some pela rua atrás do seu intento. A grama... baixa; o lixo... naquela base de tronco garrafas uns tocos serrados um copo de plástico um pedaço de vidro estilhaçado de automóvel; aqueles dois homens se sentaram na grama perto daquela pedra do meio e se escoram; uma cadela muito marrom, marrom-canela atravessa a rua, parou ali na calçada ficou me olhando, (os olhos tão marrons quanto ela, só que claros (marrom amarelo)) deu um gostoso espreguiçamento abaixando o cachaço e esticando as pernas, voltou a de onde veio. E tudo isso entre prédios; pelo menos em dois dos quatro lados. (E) Se você vem vai pelas ruas com algum tampão nos ouvidos, é possível ouvir melhor de outro modo: os próprios passos, o seu pulso, a dispersão dos seus passo-a-passos e do seu coração até os ouvidos; é possível, de certa forma, ver melhor já que se está surdo, sentir o ar e todos os movimentos, os não-movimentos do qu'está parado ao você passar, qualquer cheiro, mais percebido; e tudo (inclusive os sons filtrados de certo modo pelos tampões) de certa forma salta aos olhos; e eis então quando você numa praça, chega e se senta – digamos nesta, aqui neste momento –, e destampa os orifícios: pode ter a certeza por um processo empírico de que o som o rosno a frequência frequente da cidade é mais do que se pensava: ela pode ser baixa em relação ao infinito (zênite), ou fina em relação à superfície (da Terra toda) até o núcleo – mas ocupando todos os interstícios, até mesmo aqueles urubus, três que fazem contornos e se autoenroscam já distantes como pontos esticados sobre o heliporto, tal frequência, frequente, é maior, é sem pausa, sem atropelo, é só atropelo, a ponto de você sacar, ver, perceber destampado, que seu ato de atropelar é tanto que anestésico se evola e parece não haver. Como é perceptível aquela mulher que veio e sentada naquele banco ficou tomando sorvete; como depois não estava e no seu mesmo lugar havia uma outra tomando um sorvete não igual mas sorvete também; como depois esta também não estava; (ambos os sorvetes eram de casca e massa bege); como aquele homem no banco antes vazio ao lado do agora vazio em que estiveram elas; sentou-se e olhou sem comer nem segurar nada (apoiava um dos braços no encosto), olhou mais por um tempo e também foi embora. A luz dupla daquele canto – nos troncos, na grama, nos galhos –, hoje luminosa como nunca; vem e volta, do céu à praça do céu ao prédio do prédio à praça; aos nossos olhos, sentidos, peles; enxágua o espaço. Toda vez é como nunca. (G) No miolo. As paineiras com suas bases barrigudas naquele canto não veem os carros nem eu que as ladeei por lá vindo nem o homem com dois cachorros um pequeno no colo e outro pequeno no chão mas preso latindo e puxando a guia pela excitação com a liberdade do outro de um outro dono, um marrom e ágil que corre muito quando o seu dono joga a bolinha (e sempre a pega): elas (paineiras) simplesmente aparentemente se imobilizam e saúdam o alto com seus galhos. Os dois meninos passam brincando, saltos, pulos, estrelas; um descobriu a palma seca que pende da palmeira, a usam de cabo, voam em volta do tronco parabólicos, treinamento artesanal de astronauta. Aquela moldura baixa do canteiro pintada de branco é quase uma estrela, é uma estrela, só que só de três pontas, para um só lado. Os dois vieram ainda brincando, se sentaram a menos de meio metro de mim, sorteiam não sei quê com um com uma folha na mão fechada; falam, decidem o melhor jeito, ih a folhinha caiu, ah você que escondeu... não, acredita em mim; decidem, repetem, falam; eu sou um fantasma, não existo, um ser sentado rabiscando um papel qualquer com traços esferográficos deve ser um ser absolutamente inofensivo para os dois; quando se entendem o cotovelo de um chega mesmo a quase encostar no meu pé enquanto conta alto no degrau abaixo com a cabeça sobre os braços dando tempo ao outro de se esconder e de depois ir atrás; lá vou eu lá vou eu! grita quase cara-a-cara comigo; e vai. Tem uma pichação pequena no chão do cimento aqui atrás; de vez em quando olho, desatento viro, porque de rabo-do-olho sempre parece uma coisa, um objeto. No pé da árvore onde aqueles mesmos ou outros moradores existem, agora tem uma caixa, branca e grande, geladeira ou freezer abandonado, depositado ao lado do tronco; logo ao lado mais restos; a 10 m um dos que existem dorme. (Um dos garotos disse pro outro: tchau. Ah João, fica mais um pouco, mais vinte minutos! – U... tá bom, só três. Ficou; por volta de só mais uns três minutos mesmo, se despediu de novo. Ambos se foram em duas direções.) Uma sombra rápida, não entendo, ah era um helicóptero. [À saída, na quina oposta à das palmeiras, o contraste bonito de folhas secas redondas em cheio no gramado; uma camada de sol sobre. Uma mulher, saída do carro (com seu alerta piscando os quatro cantos), discute com um motoqueiro, também desapeado de sua moto; acho que se trombaram.] (F) Dias de sol, dias sem chuva. Secos. Luminosos. O céu poluído poluído de azul; o céu azul, azul, poluído. Mas a poluição mal vejamos: vemos esta praça com luz, feriado de primeiro de maio. Trabalham só as pombas; aqueles três cachorros soltos; o vento que não leva o lixo, lixo na sua maioria de papéis brancos, resma que algum louco soltou daquele edifício ou desceu e veio semeando a praça de páginas. Passa um carteiro, um entregador de comida, um pai e uma mãe de família com dois filhos e bicicletas, três senhoras tricotando? Não. Não passa nada. Só as pombas. Os três cachorros que já foram embora. Um carro de polícia silencioso, lento, fez a cabotagem pela rua, averiguou a terra-firme da praça, mais ou menos o que eu mesmo averiguo, só que de lá eu na visão deles, daqui eles na minha, na nossa aquele homem que veio e se deitou no banco rajado de sol e sombras, dorme, no meio o tronco bífido daquela árvore sem copa, das duas pontas saem galhos, lascas como dedos, dois braços estendidos de um corpo sob o chão; chegam uma mãe com seu casal de filhos – o menino pula do banco se pendura no galho de uma outra árvore (com copa) aqui do lado, faz voltas sobe mais escala, quando lá no alto olha abaixo, avisa: mãe, olha onde eu tô. O sol; as direções das sombras, em placas, sobre o solo; um entulho sobre o palco (em um seu canto). (I) A grama ressequida não tem para onde correr neste sol que atiça. Na sombra desse eucalipto é um pouco melhor. À entrada daquela rua, frente ao muro de pedra de esquina, a placa amarela do poste, quadrada mas posta de lado, ponta sobre ponta: RUA SEM SAÍDA. Da silhueta da favela vem um som de martelo sobre madeira; alguém conserta uma porta, uma calha, um invento. Ou destrói. Na quadra quatro meninos e uma bola. Num dos quatro bancos do cimento três garotas conversam, mas o vento joga a conversa delas para fora, não manda pra cá. O que mais dizer? Então não diga. Diga aquele homem de mãos no bolso batendo papo com o outro diante do portão de ferro da casa pichado. Diga aqueles dois garotos patinando no asfalto, um usa um cano como forma de bastão de esqui ou alavanca e dá certo. Diga a conversa ainda das garotas. O martelo, o seu esforço. A garotinha bem menor do que as que conversam, de saia rosa e blusa branca indo e vindo e olhando o céu no balanço improvisado com corda e só corda no galho grosso saído do tronco daquela árvore maior. Diga o mais um prédio gigantesco, em segundo plano com a favela no primeiro, por ora ainda no arcabouço mas com guindastes em cima indicando que está subindo, diga os telefones públicos, azul-amarelos, costa a costa, cabisbaixos, sem uso, diga o meu boné preto parado no gramado seco. Diga tãh-tãh-tãh... o martelo; diga ...-hhh-...-hhh-... o silêncio da menina balançando. (Nuvens vindo; dois urubus altos; mais dois. O cinza, chumbo, sobre o dorso delas, nuvens de cabeça pra baixo. Uma fumaça de algum lugar. As garotas já se foram; também a do balanço. [“É a tua pena, alma curiosa de perfeição; a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dous astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá...” – Machado de Assis, Trio em Lá Menor]) (D) Esta praça está bem largada. Folhas secas, árvores sozinhas, partes da grama queimadas. Não há bem lixo, só um vazio seco. Na amurada do meio três homens calados, um lê um jornal, outro parece segurar um bicho talvez um pequeno gato ou outra coisa que acaricia/consulta, outro dorme, deitado ou está morto. O poste em frente ao trapézio não aceso já que é dia, mas o flores acendido da floricultura, no seu outro lado da rua um carro blindado de transporte de dinheiro estacionado. Um dos seguranças saiu, deu dois passos, mais dois, acendeu um cigarro se escorando no aço, olha desconfiado. Três pombas negro-esverdeadas, cinzas, branco embaixo das asas, patas vermelhas, procuram ciscar alguma coisa na área do trapézio, na área só de pouca grama do trapézio. Passa um ônibus. Um bando de rolinhas segue a ciscagem; cavucam, debicam, procuram muito, como as pombas, acho que não acham. Naquela casa em construção ou parada para sempre (tem faixas de VENDE na entrada) um homem do lado de dentro aparece da cintura para cima e de boné e sem camisa apoia os cotovelos no muro e calmamente lê a folha de um outro jornal. A praça se coloca no chão, existe no retângulo, preenche-o, cria sua situação, diz: não diga mais nada, põe um traço, reticências, ponto, ou só o espaço do fim do período ou entre um período e outro que no mais é sempre branco. Passa um outro ônibus, lotado. (B) Esta vai um pouco mais largada que a outra. Lixos o velho banco quebrado os postes sempre acesos é preciso avisar a prefeitura já que ela não vê nunca, pelo menos aqui tem um pouco do úmido um pouco de cheiro de mato que por ora está em falta naquela. Ou é minha ilusão por ver essas árvores mais altas e mais próximas ao meu costado. Uma mulher leva uma labrador clara de lá pra cá na coleira, de uns 10 a 10 m para, fala Meg! seeen... ta, seeen... ta, e a Meg senta, a dona fala muito bem e segue a guiando até a próxima sentada, a Meg obedece, não pode fazer mais nada, obedece, anda a passo-a-passo com a dona, obedece, dependura a língua. Em fevereiro no jornal saiu a notícia: Engenheiro é morto em assalto; foi logo ali, na rua Geórgia, numa casa entre a praça e a Ribeiro do Vale. A matéria diz ainda da violência, dá alguns detalhes, recortei e está aqui comigo, termina: Os moradores pretendem fazer abaixo-assinado, pedindo autorização à Administração da Regional de Santo Amaro para cercar com grades a Praça Inácio Pereira, que “se transformou num ponto de drogas”. (Rosana Teles, O Estado de São Paulo, 2.02.01) Vamos ver no que vai dar isso. Vamos ver daqui a 10 anos como será essa passagem, se será passagem, se será passável. No caminho da D a essa vim pensando como é que seria se, digamos, todos os seres humanos morressem de repente num mesmo momento por exemplo de um ataque do coração fulminante. Depois de uma hora: carros batidos, corpos de motoqueiros esborrachados, desastres, consequências de desastres, incêndios, alagamentos, os produtos perecíveis de uma geladeira não fechada a tempo. Depois de um século, um milênio: as heras se inserindo e tomando conta através dos entulhos, renascendo nos concretos, os humos de todos os corpos, civilizações cobertas, recobertas, as raízes enfim se rasgando das terras. O casal se sentou no canteiro de moldura redonda e o menino mexe na grama. O sol está por trás daquela copa; destaca a sua rede de ramos. Ou: O sol, copas, casal com criança; a criança, que é um menino, deixou seu patinete de lado, largado no chão ensolarado à distância enquanto por ora brinca com as folhas de mato do canteiro. A ideia era ir, vir vindo, praça a praça, passar por elas e com poucas frases atravessá-las, bem menos do que as que foram, fosse um lapso de contorno ali, uma pessoa de um tal modo acolá, uma certa árvore... como se vê não consegui; tanto que esse bloco não foi de um só bloco de dia, verdade seja dita foi feito em quatro (24 e 26 de abril e primeiro e hoje de maio), nem por isso se esvai e fica assim mesmo, C/A/H/J/E/G/F/I/D/B, dez repartido em quatro mas um só, uno.
.
*
.
(quintal) ..... Seis das orquídeas mais vivas do mundo saem dos dois xaxins. Um casal em um, quatro no outro. São rosa, um rosa intenso, de vinho tinto de sangue selvático. (Se se veem contra-luz, vê-se a luz varando sua pele (por ela filtrada); mas mesmo de frente, com o sol atrás de você as olhando, delas sai a luz.) Não perguntam, não respondem nada, existem, por absoluto; por serem só, assim, em seis, únicas, pela relação com o ar, com o pó, os pós, os outros seres, coisas, pela relação com a altura dos xaxins que as estão elevando. (ou – me peguei – será que são elas que elevam a altura)
.
2 05 01
.
.

Nenhum comentário: