VV 12

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(Cumbica; aeroporto internacional de São Paulo) ..... Anda-se no saguão principal, de um lado e de outro as escadas rolantes em dois níveis, parado pode-se olhar no painel a lista de cidades e números, de vez em quando em movimento, também rolantes. Onde era Madri pode já não ser mais, Bancock, Miame, Zurique; Caracas pode virar Copenhague, São Luís Guadalajara ou Sidney, e os números junto, de outros destinos. Voo dois, três, cinco, para Florianópolis e Porto Alegre, embarque portão seis... Vuelo dos, tres, cuatro, para Florianópolis y Porto Alegre, embarco portón seis... Flight two, three, four, to Florianópolis and Porto Alegre, departure gate six... diz a voz ultraeducada de androide em repouso dos alto-falantes, enquanto futuros voadores ou acompanhantes terrenos passam com malas valises pacotes, procuram um rumo ou já iam num decidido. No restaurante lá em cima pode-se entrar e dar uma olhada, ver a foto das comidas e o cardápio pregado, espiar o jogo de futebol que a televisão transmite; uma atendente chega – pois não senhor, deseja uma mesa? não obrigado, só tô dando uma olhada – tem os cabelos presos num rabo-de-cavalo puxado, maquiagem numa cabeça sobre uma espécie de terno e saia bem caídos, o sorriso é simpático e franco, claro, claro que simpático e franco em demasia, talvez em bom estado além da conta. Do janelão tem-se a vista do estacionamento dos “pássaros de ferro”, dos ferros alados para não usar expressão tão posta. Um jumbo japonês talvez esteja se abastecendo; é branco e tem uma espinha como uma beluga, mais de um andar (3? 4?), as pequenas rodas sustentam o pouso parado e só na cauda tem uma cor: as manchas em vermelho do símbolo da empresa e as três letras, Jal. Como diz o meu pai é incrível um bichão como esse sair do chão e se manter voando. Já já lá vai um: dá a ré com a ajuda de um trator e um cabo, segue pela pista que dá à pista maior, sai de vista e contorna, depois reaparece numa linha em ângulo: ascende ainda com rodas dentro do ar. As pessoas comendo; umas vendo o jogo; umas comendo e vendo o jogo; os garçons. No bar-café do primeiro andar, no balcão ao canto, três americanos dos Estados Unidos soltam uma gargalhada em conjunto enquanto bebem uísque com o assunto divertido; as bochechas carmim na pele muito branca de um, enquanto ri. Da visão de cima da sacada, abraços de despedida no andar térreo (ou chegada? – não se sabe por que história as duas mulheres não se separam, balançam enquanto uns amigos em roda olham, esperam, ambas se colam de um modo doce mas o abraço é intenso, tamanha a pré-dor da partida, tamanha a alegria do retorno; vamos ficar nesse embalo sempre, seja pela ida seja pela vinda, dizem caladas). Fora: a uns mil metros da saída dois hotéis estão ficando prontos, provavelmente muito útil a quem quer ter reuniões, resolve seus busness, discute os acordos, assinaturas, tratos, volta ao embarque. Pela estrada a se aproximar da cidade logo à direita está o presídio, você pode vê-lo, um dos muitos, da cidade, do estado, pelo mundo. Que lugar para se ter como paisagem de entrada. Que lugar para se viver perto de um aeroporto. Que lugar para se estar vivo. Em frente ao fim da tarde o crepúsculo fabuloso: céu devassado, largo, só de algumas nuvens de tecido fino transformando em roxos rosas claros lilases o vapor de água branco de que o tecido é feito. O que deve pensar alguém ao passar aqui pela primeira vez? Essa cidade não tem bem uma porta; vai te adentrando aos bocados, quando vês já foste tomado tudo é bairro construção trânsito, não é porta são corredores.
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(a rua – é preposição o a) ..... Dia aberto, mais ou menos calor. Mais ou menos: 18h e 30. Em uma das direções da encruzilhada o farol do sinal azul-verdoengo sobre os azuis do céu ao fundo.
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(de manhã) ..... Na Paulista, da esquina dela com a Al. Casa Branca, essas mesas de plástico sobre a calçada, ali o Trianon (seus verdes, suas folhas, sua grade), do outro lado o Masp, sua viga vermelha que o alça, embaixo sobre um andaime um funcionário esfrega com um pano o teto do vão. O famoso vão livre do Masp; por onde o vento passa; quaisquer tipos sociais; os cidadãos. É um dia nublado, a temperatura desce, as quatro esquinas, prédios, o canteiro central cindindo entre as duas pistas. Como passa carro. Como passa gente. Venho pela calçada a pé; naquelas mesas, única ocupada, um homem lê o jornal em silêncio enquanto a rua ao lado não sobe com o farol fechado – semáforo, em vermelho. (Chegando em casa, ao retomar o livro que leio, Sonhos de Einstein – uma ficção, em que se supõe o físico sonhando com diferentes sentidos de tempo, na cidade de Berna em 1905 – me deparo com o sonho específico em cujo sentido o tempo não tem futuro, Einstein sonha pessoas que “não podem conceber o que pode estar além da extremidade visível do espectro”, sendo o futuro as cores além do violeta. E: “No pequeno café com as seis mesas ao ar livre e a fileira de petúnias, um jovem está sentado com seu café e doces e tortas. Inerte, fica observando a rua. Viu duas mulheres de suéteres rindo, a mulher de meia-idade na fonte, os dois amigos que não param de se despedir. Enquanto está ali sentado, uma nuvem escura passa sobre a cidade. Mas o jovem permanece sentado à mesa. Consegue imaginar somente o presente, e neste momento o presente é um céu que está escurecendo, mas sem chuva. Bebendo seu café e comendo sua torta, ele pensa maravilhado como o fim do mundo é tão escuro. Ainda não há chuva e, com os olhos semicerrados, ele tenta ler no jornal a última sentença que lerá em sua vida. Começa a chover. O jovem vai para dentro, tira seu paletó molhado e pensa maravilhado como o mundo pode acabar em chuva. Conversa sobre comida com o chef, não porque esteja esperando a chuva passar; ele não está esperando nada. Em um mundo sem futuro, cada momento é o fim do mundo. Depois de vinte minutos, a nuvem carregada vai embora, a chuva para e o céu clareia. O jovem volta para sua mesa e fica pensando maravilhado como o mundo pode acabar cheio de sol.” O autor é um sujeito chamado Alan Lightman.)
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[Na verdade não foram de hoje os dois primeiros; são de há muitos dias, dias vários, mas que ficaram como esses sonhos que a gente não escreve mas não esquece, então os taco agora como de certa forma forma de me livrar-lhes – escrevo-os hoje –, de certa forma os tornando mais de verdade, ou mais sonhos, só que literários. Por exemplo os números e cidades do aeroporto não devem ter sido exatamente aqueles, mas ficam sendo.]
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11 05 01
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