VV 14

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(trem) ..... O fumê dos vidros desafoga um pouco a força calorenta da luz da tarde que vem de fora; suaviza, parece acalmar os passageiros. Os passageiros vários no vagão cheio, silêncio, só uma música de fundo que vem do rádio, estão pensativos, são vários pares de olhos de olhares longínquos, uma meia dúzia talvez menos dorme, a nuca nos encostos ou em direção aos ombros, dois leem, acho que nem uma troca de olhar se dá por mais de 1/5 de segundo, ninguém conversamos. O vagão nos leva na indicação lisa do trilho. O balanço. O barulho das avenidas para na vedação dos vidros sem frestas. Com arranhões, mas sem frestas. Vê-se o rio: é o Pinheiros, na pista interna (entre a margem e o trilho, que está entre a pista e as avenidas) um caminhão parado com operários perto, tentam limpar arejar revigorar um pouco a água. Daqui até parece limpa, preta-tinto, e ondula; mas muitos musgos, lama onde é rasa, e lixo – garrafas, restos, trecos, tralha, lixo. Como é que uma cidade destrói o próprio rio que tem. Como é que uma cidade destrói o próprio rio de que é feita. Ou que a levou a ela – ou que lhe deu água (ou vida) – ou que a fez correr. Como é que a cidade o restituirá – se é que. Outro caminhão passa enquanto passa o trem, vai pela pista interna, por um momento paralelos e a velocidade é a mesma, é vermelho e de repente diminui, uma lombada, acelera de novo com a poeira que solta mas sucumbe de novo, é mais lento que o trem. Ou quer ser. Ou pesa mais. O trem, pesado, balança e vai. E vamos também, como não.
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USP, Universidade de São Paulo, Cidade Universitária. Aqui é uma parte de grama entre a reitoria e a avenida – uma avenida mais acima de que não sei o nome, do outro lado dela acho que é... a Filosofia. Para lá da reitoria o Museu de Arte Moderna, para lá dele, o CRUSP. Lá para oeste veem-se as torres da ECA, a leste uma lua quase absolutamente cheia já se acende apesar de ainda ser à tarde. O azul do céu vai morrendo sob a bola, onde um cinza em pó sobe, suave, neutro, mas bem nítido no todo. Agora que vi: a oeste mesmo, mais oeste que as torres, o sol. É que decai detrás de uma copa de árvore a uns duzentos metros, e a visão ainda é vasculhada entre dois troncos de árvores mais pertos de mim: paineira e jacarandá (ouso julgar, julgo nomear), embaixo desse mesmo jacarandá estive há uns tempos. Na ocasião um casal de corujas vivia nos seus galhos; nessa ocasião-já continuam, ali estão, aqui deve ser mesmo onde moram, quando a gente chega elas olham com as rotativas cabeças, encaram um certo tempo depois deixam, mas de tempos em tempos vigiam, a mo'de ver se não anda nenhuma besteira a ser feita lá embaixo, agora, cada vez mais que crepuscula, fica mais difícil vê-las misturadas nos galhos. O sol vermelho; avermelha o resto. A lua mais e mais esbranqueja, irmã-gêmea fronteira, no extremo oposto; de vez em quando vem um avião na direção do globo, chegando perto se inclina e passa embaixo, ávido de aeroporto. Verde; rosa, branco, azul, cinza; as raízes projetadas das árvores, projetando as árvores, em pequenos morros. Cai um friozinho. Aqui é um ponto do Oeste da capital paulista. Desse miniponto em que os meus olhos se sentam mais ou menos a noroeste se destaca a Praça do Relógio com o relógio, mais propriamente ele: é uma placa dupla de retângulos espigados, de pé, com um círculo de doze pontos com dois ponteiros no alto, marcam agora não importa a hora, um de cada lado. A base é circundada por um lago, uma água parada redonda (parada provavelmente pelo racionamento de energia que assim a estagna desse jeito), ao redor do círculo calçaram no ladrilhado uma frase escrita duas vezes em toda a curva da borda: NO UNIVERSO DA CULTURA O CENTRO ESTÁ EM TODA PARTE. Cai a tarde, cai e escurece, e obriga as faculdades todas a se iluminarem com a própria luz. Um homem que logo ali lia sem camisa ao sol já pôs a camisa e se foi de onde já não havia sol há muito. Só na paineira, sentada à raiz, a moça que desde quando eu cheguei continua sentada e de punho na caneta escreve, escreve, escreve um monte de palavras, não sei quanto, até quando.
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(o trem), balança, balança, joga, mantém a linha reta do sutil sacolejo. E ri-se a orquestra estridente em doudas espirais? Dois garotos cada um com um violão desencapado, calados (os quatro), nem rádio, só o som do encaixe motor-rodas-trilho. Carreiro. Parado, inteiro sob o trem andando – conosco parados inteiros nele andando. O vagão vai cheio de gente, gente cheia; cansaço, muitas pálpebras descidas, as costas da mão num zigoma dão apoio à cabeça que desce; um outro de braços cruzados parece olhar as horas do seu relógio de pulso com insistência: mas não quer saber do tempo, os olhos estão fechados, descansa; uma mulher de cotovelos sobre a bolsa está de mãos dadas e encobre a cara ao fecharem-se frente à testa – também tenta um descanso ou reza com ânsia? Agora o fumê dos vidros não importa, porque agora a luz vem de dentro, de artifício. Balança, trem; ranja; balança.
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3 07 01
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* Uma cidade destrói o rio que tem vai ver por isso: porque pensa tê-lo; daí o detém, tranca, fossaliza.
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