VV 15

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(trem) ..... Já na estação senti qualquer coisa de veludo, fosse na moldura do guichê em que eu me apoiei para esperar o troco, fosse no troco que o bilheteiro empurrou e o seu boné: ia se tornando macio além do tecido, a cor dele foi ficando macia e invisível, sutil. Mas ouvi o vagão e saí correndo, vim, entrei aqui. Aquele senhor de óculos imensos me olhou assustado talvez por eu estar assustado tentando me achar aqui dentro; ainda olha (me sentei, me ajeito), mas pouco. E não tenho tempo de vê-lo me vendo nem de me ajeitar direito porque isso que me faz lembrar do guichê estranho e ver que ele foi menos estranho que isso que importa: nos canos de apoio para mãos e braços aparece um tecido; no chão é um veludo espesso (sente-se através do sapato o tapete que cresce logo); as roupas das pessoas mais grossas, as linhas das indicações dos mapas bordadas, o vidro vira plástico e principalmente este em que encostei minha nuca parecia que ia cair e me levar junto. Não grito; as pessoas estão imóveis, apáticas. Os tecidos não estão sobre os canos, sobre os bancos e paredes e teto e piso: vêm de dentro, os substituem. Não substituem só os canos, bancos, paredes teto piso: substituem os homens; as pessoas de dentro das roupas; a pele delas pelo tecido que vem dentro (com certeza os ossos, ou as medulas, foram tecidos primeiro). Olho o olho-de-boi da porta que dá para o outro vagão e o corredor leva ao outro olho-de-boi que chega ao outro olho-de-boi que dá para fora, vejo o caminho para trás e o trilho que desova apesar da distância, é como se meu olho (o meu olhar) s'injetasse no túnel de vagões e ao mesmo tempo encolhesse a visão – não é o trilho que desova; é desovado. Então a luz se tece: ela também tecido, se adensa no ar, onde rebate, onde se espalhava em qualquer recanto – nas lentes dos óculos do homem é fios que as vara, fios de linha dos raios que era através dos vidros, vidros que de plástico também passam a tecido, um transparente. Me jogo ao chão para manter o equilíbrio já que o trem inseguro treme no deslize já trôpego da corrida; vai-se virar paçoca ou uma trouxa grande, embolo de roupas para uma lavanderia que não existe no caminho. Eis aí que até o silvo que agora vejo que vinha vindo esmorece; e a opressão colorida dos panos perde o impacto; volta a maciez de boné, vezes muito: tudo derrete, vai se deitar... as paredes vêm caindo lento, à luz de colchão de clara em neve se misturam, o chão devassa os trilhos que não mais passam quase, vêm junto. Vejo ainda o fim, o fim que os vagões deixam, que o meu ex-túnel deixava com objetividade: a cidade em silhueta se apresenta distante, viemos pela Ponte Fina que vai além dos subúrbios. O sol desce meio de lado, por trás dos prédios ao longe, e torres. A locomoção do nosso dragão de pano parou toda, comboio de tecido líquido desaparecendo na terra. Pego meus apetrechos, minha roupa do corpo (milagrosamente não fui tecido?), vejo o contorno da cidade longe, penso por que aquele pontilhado típico das luzes à noite ainda não foi aceso? mas junto minha trouxa, nas mãos, na cabeça, nos ombros, volto.
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(rua) ..... Numa esquina ao passar de carro entra pela janela a visão de um homem que da quina de uma calçada fala a outro na quina oposta através do entrecruzamento da encruzilhada, o que fala segura um carrinho de mão por ora parado cheio de sacos e bagagem o que escuta só sacos e bagagem sem carrinho por ora mas também parado olha atento ao outro através do entrecruzar da encruzilhada e a fala que soa é de uma outra língua ou de um português puro mas que só eles entendem seja pelo vômito do ritmo seja por qualquer outro código íntimo entre eles ou são meus ouvidos moucos no meio da cruz do trânsito trânsito aliás pelo qual todo a fala certamente atravessa e que eu tentaria e vou tentar traduzir assim: carimbê-carimbói-carimbeq'tchanga! – apressada e veementemente, assim.
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4 07 01
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